JOÃO MARIA
JOÃO MARIA

Em nova peça, Cia do Latão vai para a rua encontrar o público

Em 'O Mundo Está Cheio de Nós', companhia tem viajado pela cidade com história inspirada no filme ‘Noites de Cabíria’

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 03h00

Quando a Companhia do Latão fez as primeiras apresentações de O Mundo Está Cheio de Nós, nos arredores do Teatro Flávio Império, os artistas da peça puderam confirmar a adesão do público – em geral pessoas que não veem o teatro como seu principal passeio ou evento preferido. Depois de ser assistido em regiões como Cangaíba, Freguesia do Ó, Bom Retiro e o Mooca, o novo espetáculo da companhia faz temporada no Sarauzódromo da Biblioteca Mário de Andrade, a partir desta segunda, 13.

A prévia circulação da montagem, antes de se fixar em um espaço para temporada, tem muitos motivos, conta o diretor Sérgio de Carvalho. “Nós estávamos buscando uma história que estivesse ligada aos problemas e características da cidade.” Outro desejo, ele acrescenta, era que a peça fosse projetada para locais abertos – os chamados espaços não convencionais. “Estar próximo de um teatro nos ajuda, em caso de chuva, mas a peça nasce para ser vista ao ar livre.”

Quando estreou Lugar Nenhum (2018), inspirado na obra em Chekhov, o Latão focou na história de uma família que festejava o aniversário de um estudante, durante os difíceis anos da ditadura. Mais atrás, em O Pão e a Pedra (2016), a companhia se apropriou do pensamento religioso – mais precisamente a Teologia da Libertação, que esteve ao lado das mobilizações de greve no ABC, entre 1970 e 1980. Nas duas montagens, a luta das personagens parecia estar ligada à construção de uma força coletiva, da resistência como postura de um determinado grupo social. 

Já em O Mundo Está Cheio de Nós, a companhia parece querer diluir tanto os laços quanto os territórios em busca de ampliar a visão. No centro da trama está a prostituta Valéria Dim, no papel de Helena Albergaria, que tal como a otimista Cabíria do filme de Fellini, inicia uma jornada após levar um golpe do namorado. No caso de Noites de Cabíria, o golpe imposto à prostituta baixinha é ser empurrada em um rio de Roma e ter sua bolsa levada pelo companheiro Giorgio. Após ter o coração despedaçado, Valéria promete a si mesma que não será mais enganada e passa a trilhar pela cidade. “No filme, Cabíria começa indo para uma região bem rica da cidade. Na peça, Valéria sairá da Liberdade, onde mora, e seguirá para os Jardins”, explica a atriz. 

Quem lembrar do longa de 1957, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, também vai saber como era o figurino que eternizou a pequena Cabíria – um casaco de pele surrado e uma blusinha listrada – interpretada de Giulietta Masina. Ao compor sua Valéria, Helena garante que chegou em um formato semelhante (veja a foto) partindo de outras origens, como a música e até mesmo da arte drag queen. “Durante a criação do espetáculo eu buscava na música punk algumas referências para o visual. Até lembrei daquele programa Perdidos na Noite, do Faustão, nos anos 1980. Era um espaço na televisão que você podia ver e ouvir esse estilo musical. A vocalista trans Laura Jane Grace, que tocou na banda Against Me! dizia que o punk foi criado para que qualquer pessoa pudesse protestar, sem que fosse músico ou especialista. De alguma forma, isso está no espírito da peça.” Outro elemento que a levou a Cabíria, foi a adorada Bob, The Drag Queen, persona do comediante Christopher Caldwell. “Ela é engraçada e também carrega essa energia de desconstrução, de um humor rasgado.”

Para o diretor, a peça de Brecht A Boa Alma de Setsuan também foi um guia para o espetáculo. Na história escrita pelo alemão, o debate sobre a bondade tem como centro a província de Setsuan, que em uma noite é visitada por deuses disfarçados. A única na cidade que recebe bem os viajantes é a prostituta Chen Tê – papel já vivido por Denise Fraga – que oferece lugar para que os seres divinos descansem. Sua hospitalidade e generosidade são recompensadas com muito dinheiro pelos deuses revelados. “A peça revela um sentimento das ruas, um comportamento, como se a cidade fosse uma personagem”, afirma Carvalho. Ao deixar a antiga profissão, a mulher abre uma tabacaria na cidade, o que não significa que ela conquistará o respeito de seus conterrâneos. 

Para ele, O Mundo Está Cheio de Nós, busca suscitar as difíceis condições de vida de uma metrópole, pelo olhar, digamos, otimista, de Valéria. “Ela vive as realidade de alguém que tem o corpo, e o prazer, como mercadorias. Sua entrada na prostituição se dá como uma descoberta. No início não como necessidade. Aos poucos ela vai descobrindo como se joga.”

No palco, nossa Valéria é acompanhada de mais oito atores e atrizes, e três músicos, que na peça juntos perambulam por lugares como Liberdade, Jardins, Cracolândia, Parque do Trianon e a Represa Guarapiranga. Helena explica que a música cumpre papel especial na narrativa. “Como não há elementos visuais que apontem para essas regiões, são os músicos que pontuam as transições de lugar para os lugares.”

O diretor Sérgio de Carvalho acrescenta que a peça do Latão tem um tom “honesto, de peito aberto.” Talvez, como a frase atribuída a Einstein: “Prefiro ser otimista e estar errado, a ser pessimista e estar certo.”

O MUNDO ESTÁ CHEIO DE NÓS. Biblioteca Mário de Andrade. Rua da Consolação, 94. Tel. (11) 3775-0020. 2ª, 3ª, 20h, sáb., dom., 17h. Grátis. Até 30/5. 

Tudo o que sabemos sobre:
Companhia do Latãoteatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.