Lina Sumizono
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BR-Trans persegue os motivos da vida marginal de travestis

Espetáculo com Silvero Pereira e dirigido por Jezebel de Carli traça uma cartografia social que inspira um método para o ator

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2015 | 02h00

Foram seis meses dentro do presídio central de Porto Alegre. Mais especificamente na ala destinada a gays, travestis e seus companheiros. Em 2013, o ator Silvero Pereira saiu do Ceará e foi para o Rio Grande do Sul para dar continuidade a uma pesquisa iniciada em 2004. “O projeto surgiu com a ideia de investigar esse universo e suas histórias em outra região do País”, explica o cearense. 

Nesse período, ele visitou as ruas de prostituição, casas de show de transformistas e procurou saber como as travestis se comportavam na região. Dessa experiência, brotaram histórias de amor, dor e violência que compõem o espetáculo BR-Trans – em alusão à BR-116 que liga a capital Fortaleza à cidade de Jaguarão, quase em fronteira com Uruguai –, peça em cartaz no Sesc Pompeia. “Escolhi este presídio porque representa um dos melhores exemplos desse tipo de ala e foi a segunda criada no sistema carcerário brasileiro”, conta. A pioneira foi Belo Horizonte, seguida por Cuiabá, João Pessoa e Ceará.

Na peça, Pereira leva sua Gisele Almodóvar para o palco e joga com a liberdade de ser muitas em cena. A criação do nome e sobrenome, ele explica, surge de uma identificação das travestis com pessoas e coisas. “Por exemplo, posso gostar da marca Dolce & Gabanna e de carros Chevrolet. No meu caso, acho a modelo Gisele Bündchen linda”. Já o apreço pelo diretor de filmes como A Pele que Habito ganhou mais um sentido no último dia 25, quando o ator estreou a peça, curiosamente na data de aniversário do espanhol. “Foi uma noite especial. E meu nome traz essa coisa da brasilidade e também da arte.”

O trabalho de Pereira, que integra o coletivo artístico As Travestidas, não apenas cumpre o papel de colher histórias que pudessem ser acopladas a uma dramaturgia, mas, como ele afirma, também irrompe uma discussão temática. “Nós desenvolvemos um caminho que chama procedimentos técnicos para o ator trans. Aqui, pensamos o ato de se travestir enquanto performance”, aponta. “Não é uma discussão de gênero e diversidade sexual. É uma discussão de travestilidade como performance para o ator. É uma alusão ao bufão”, diz, referindo-se às figuras populares e marginais da Idade Média que utilizavam o riso e a comédia para inclusive criticar o rei sem correr o risco de serem condenados.

Tal método se apropria dessas narrativas que falam de sobrevivência e que, muitas vezes, incorrem em algum tipo de violência.

Segundo relatório da ONG Internacional Transgender Europe, que monitora casos de violência a pessoas trans no mundo, entre janeiro de 2008 a abril de 2013, foram registrados 486 assassinatos no Brasil, número quatro vezes maior que o México, segundo país na lista. “Somos uma sociedade cheia de paradigmas – vestimos uma máscara democrática. Fica claro quando observamos a tríade que nos forma: religião, educação e família. Então, na escola não somos aceitas. A família não nos compreende e, na religião, não nos sentimos bem. O que resta é a marginalidade e periferia.”

Com a vivência no Sul, Pereira compreendeu um cenário complexo mas que começa a dar resultados positivos. “Existe o estigma do macho sertanejo e também do macho gaúcho dos pampas.” No Sul, é mais fácil usar o nome social e fazer parte de uma universidade. Você pode ver homens sendo gentis com travestis, abrindo a porta de carro, tratando bem nos restaurantes. Por outro lado, no Ceará temos a primeira doutora transexual do País”.

Para Silvero Pereira, ou Gisele Almodóvar, encarnar canções de Lana Del Rey e Gal Costa no palco transforma o teatro em um ideal de inclusão. “As pessoas precisam entender que a marginalidade é o produto de uma sociedade excludente.”

BR-TRANS. Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93. Tel.: 3871-7700. 5ª, 6ª, sáb. 21h; dom. 19h. R$ 7, R$ 25. Até 18/10. 

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