GABRIELA BILO/ ESTADAO
GABRIELA BILO/ ESTADAO

Em ‘Nine – Um Musical Felliniano’, a crise é bela

Peça une psicanálise com memória para celebrar a vida

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

10 de maio de 2015 | 05h00

Reza a lenda que, em 1962, Federico Fellini vivia uma crise criativa. Aos 42 anos, era já um cineasta completamente consagrado, na Itália e no exterior. Assinara algumas obras-primas como A Estrada da Vida (1954) e A Doce Vida (1960), mas enfrentava um caos mental de alguém com quase tudo conquistado. Mas é justamente essa impotência imaginativa, comenta-se, que o levou a criar outro filme seminal, 8 ½, sobre um famoso cineasta, Guido Anselmi, cuja criatividade, tão saudada, está momentaneamente bloqueada.

Na luta para recuperar o vigor mental, Guido liberta suas fantasias, temores, dores e desejos ao unir real e imaginário, entrelaçando personagens em carne e osso (como sua mulher) com os resgatados pela memória afetiva (a mãe, a musa, a amante). Uma parede quase imaginária separa realidade do sonho.

Estreado em 1963, o longa faturou o Oscar de melhor produção estrangeira e inaugurou uma nova fase na carreira de Fellini, mais confiante em apostar na fantasia e no memorialismo. “É também um dos filmes em que Fellini mais expôs sua intimidade, inclusive escalando sua amante, Sandra Milo, justamente para o papel da amante”, conta o encenador brasileiro Charles Möeller, que se aprofundou em toda a obra do cineasta italiano para enfrentar um grande desafio: ao lado de Claudio Botelho, montar Nine, espetáculo da Broadway que estreia dia 23 no novíssimo Teatro Porto Seguro e com um subtítulo exclusivamente nacional: Um Musical Felliniano.

De fato, impossível dissociar Nine de Federico Fellini. Criado por Maury Yeston (compositor e letrista) e Arthur Kopit (autor do texto), o musical acompanha a crise criativa do famoso cineasta Guido Contini. Sem saber como iniciar seu próximo projeto, ele resolve fugir das tensões e passar alguns dias em um spa em Veneza. Lá, com a mente em completa ebulição, encontra todas as mulheres da vida: a mãe, a esposa, a amante, a prostituta, e a musa e a produtora de seus filmes. São momentos delirantes, em que a realidade se confunde com a fantasia e a memória. 

Nine estreou em 1982, quando a Broadway passava por maus bocados, com a Times Square tomada por prostituição, drogas e violência. O cenário clean da peça, quase que apenas formado por cadeiras, revitalizou o gênero. “Foi uma ruptura: o espetáculo era cerebral e a Broadway se reinventou”, analisa Möeller.

Já o primeiro número é de tirar o fôlego: Nine - Um Musical Felliniano começa com o foco no cineasta Guido Contini (Nicola Lama) ouvindo as reclamações da mulher (Carol Castro), insatisfeita com a distância do marido e ameaçando divórcio. As duras palavras dela, no entanto, não impedem que Guido se perca em seus delírios, recebendo a visita imaginária de outras mulheres de sua vida: a mãe (Beatriz Segall), a amante (Malu Rodrigues), a musa de seus filmes (Mayana Moura), a prostituta (Myra Ruiz) e a produtora de seus filmes (Totia Meireles).

“Nine fala sobre o poder das mulheres e como elas representam eros e tanatos”, observa o diretor Charles Möeller que, como de hábito, aprofundou estudos sobre o assunto, chegando a relacionar as intenções de Federico Fellini em 8 ½ com as definições psicanalíticas de Jung. “8½ é o mais junguiano dos seus filmes. Ele descobriu todos os seus arquétipos e ‘animas’ e os colocou no filme, que é uma cartilha de signos, sonhos e enigmas.” 

Daí surgiu sua proposta de direção, baseada em uma estrutura fragmentada, pois Guido, em sua busca pela inspiração, trata o real e o imaginário simultaneamente. “A peça se passa toda dentro da cabeça do Guido, seguindo a lógica de um sonho, onde ele reencontra fantasmas do passado, revê suas musas e tenta criar o seu próximo roteiro”, diz Möeller.

“Fellini era amante dos musicais e a música sempre tinha um papel fundamental em seus filmes. Sua parceria com o compositor Nino Rota é um acontecimento na história do cinema”, completa Claudio Botelho, que também assina a direção musical e a versão brasileira.

Para a delirante trajetória de Guido Contini, Möeller e Botelho convocaram um elenco respeitável, que une experiência e frescor da novidade. A começar pela veterana Beatriz Segall que, aos 88 anos, aceitou o desafio de enfrentar pela primeira vez uma produção ao nível da Broadway, ainda que já tenha participado de um musical em sua carreira (veja ao lado). Na mesma linha de apostar em novos talentos para o musical, a dupla convidou as novatas no gênero Carol Castro, Leticia Birkheuer e Mayana Moura. “Eu me dividi entre os ensaios de Nine e a filmagem, no Rio, de O Herdeiro, novo longa de Roberto Santucci”, conta Carol. “Alternava comédia com drama.”

Já Leticia que, como Carol, também fez aulas de canto, descobriu os mistérios de atuar, cantar e dançar naturalmente. “Ao final, a representação precisa ser orgânica, o que exige muitos ensaios”, disse. 

Do outro lado, estão as atrizes mais experientes - como Totia Meireles, cuja atuação no musical Gipsy, em 2010, tornou-se histórica. E também Malu Rodrigues que, embora some apenas 21 anos, prepara-se para estrear o nono musical sob a direção de Möeller e Botelho. 

“Essa intimidade artística foi essencial para meu novo papel, pois exige mais despojamento físico na minha atuação”, conta Malu, que participa de cenas sedutoras com Nicola Lama.

Italiano de nascimento, há dez anos no Brasil, Lama tem a chance de reafirmar seu grande talento no papel do atormentado Guido Contini. “Busco apresentar um personagem italiano que não se pareça com o estereótipo que o mundo conhece”, diz Lama, que ainda não esconde um leve sotaque. Ele também busca referências. “Vejo em cada uma das mulheres de Guido alguma que eu tenha conhecido e que traduza seus sentimentos.”

A sofisticação de Nine se completa com a coreografia de Möeller e Alonso Barros e os figurinos de Lino Villaventura.

ENTREVISTA Beatriz Segall - Atriz

‘Quem sabe a Sophia Loren não me ensina?’

Como foi o convite para participar do musical?

Charles (Möeller) e Claudio (Botelho) primeiro me chamaram para participar de Pippin e eu aceitei. Como a Porto Seguro preferiu Nine, o convite continuou e aceitei novamente. Eu queria muito voltar ao musical.

A senhora já havia participado de outro antes?

Sim, cantei e representei em Frank V (de Friedrich Dürrenmatt, premiada montagem de 1973 dirigida por Fernando Peixoto), mas infelizmente não dei tanta importância para minha voz e não repeti a experiência.

Sua voz é preparada para um musical?

Tenho as limitações da idade, mas mantenho a afinação e a partitura foi adaptada para as minhas possibilidades. Fiquei tão animada que quero retornar às aulas de canto.

A senhora assistiu à versão de Nine para o cinema?

Sim, há um bom tempo, já nem me lembro mais. Mas quero rever - quem sabe a Sophia Loren (que também interpreta a mãe de Guido) não me ensina alguma coisa? (risos)

O que pensa sobre a polêmica envolvendo os personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, que formam um casal gay na novela Babilônia?

São grandes atrizes e mostram a ternura necessária para os papéis. É a melhor forma de se apresentar um tema tão delicado e atual. / U.B.

NINE – UM MUSICAL FELLINIANO

Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740, 3223-2090. 5ª a sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 80/ R$ 200. Até 9/8. Estreia em 23/5. 

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