ALESSADRO SERRA
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Em 'Macbettu', diretor italiano Alessandro Serra cria versão da tragédia falada em sardo

Peça resgata cultura da ilha Sardenha, com seu carnaval macabro interpretado apenas por homens

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 06h00

O teatro pode seduzir de muitas formas, mas por vezes esse caminho se dá em vias indiretas. No caso do diretor italiano Alessandro Serra, antes de render-se às artes da cena, o palco “dava sono”, declara em entrevista ao Estado. Desembarcou na quarta, 4, no Sesc Consolação, Macbettu, sua versão para a tragédia vermelho-sangue de Shakespeare totalmente falada na língua sarda.

No ano passado, a peça chamou atenção dos críticos quando estreou e foi considerada a melhor do ano pelo Prêmio Ubu e pela Associação Nacional de Críticos de Teatro da Itália. Fundador do Teatro Persona, Serra recorda a trilha – dessa vez insone – que o fez chegar ao palco. “Estudava cinema e ficava impressionado com a obra de Ingmar Bergman. Há uma tipologia nos seus diálogos que são muito teatrais, além da qualidade de seus atores”, diz. Como exercício de escrita, o então estudante reescrevia de modo incessante as cenas dos filmes. “Mais tarde, acabei encontrando os pensamentos de Grotowski para o formação do ator, Meyerhold e a mímica de Decroux. Foi então que comecei a pensar sobre o trabalho no palco.”

Amparado pela ideia desses pensadores que revolucionaram a condição do intérprete em cena, não é de se impressionar que Serra busque no palco nu o campo fértil para germinar as “novas palavras” de Shakespeare, levadas para a região de Barbagia, interior da Sardenha. Ele conta que após suprimir quase 60% das palavras, reescreveu os diálogos e uma tradução foi feita direto para o sardo, língua natural românica, falada com diversas variações na ilha, e que cada vez mais perde espaço para a língua italiana, entre as novas gerações. “A região tem uma identidade muito forte, talvez única na Itália, com suas tradições e cantos muito antigos.”

A qualidade textual conquistada na tradução é definida pelo diretor com certa coragem – ou seria a audácia típica dos nascidos na Itália. “Vou dizer uma coisa perigosa, mas o texto em sardo fica, muitas vezes, mais potente que o original. Não na questão poética, mas na construção dos arquétipos.” Em posse da nova dramaturgia, Serra concebeu com o elenco masculino um eco às tradições do Teatro Elisabetano e do carnaval de Barbagia, carregado de máscaras macabras e igualmente interpretado apenas por homens. “São referências presentes, mas não imediatamente reconhecíveis”, afirma. “Trabalhamos nos ensaios com muitos cantos, danças e o carnaval, mas agora tudo evaporou e ficou a essência. São coisas que não são vistas, porque estão em ação.” 

Para o ator Stefano Mereu, nascido na Sardenha, na região que inspirou o projeto, as longas pesquisas sobre a obra de Shakespeare, enquanto era estudante de teatro, não superaram o encontro com a peça em sardo. “Foi muito bonito descobrir que a nossa língua e a direção de Alessandro pudessem coincidir em um trabalho de expressão artística contemporânea. Em Macbettu, o Shakespeare da Inglaterra passa a me pertencer muito mais.” 

Já para Andrea Bartolomeu, o desconhecimento da língua, requereu predisposição dos sentidos, como parte do processo de reconhecer a região. “Aprendi algumas línguas com a facilidade que tenho de ouvi-las. Nesse caso, a imersão guiada com os parceiros que dominam o sardo, permitiu uma releitura constante do falar e dos gestos”, afirma o ator.

A experiência de Serra com o elenco, na parceria de produção entre seu grupo e o Sardegna Teatro, ligado ao governo italiano, deve se estender para outros projetos no futuro. “Passei um longo período construindo uma linguagem comum de trabalho com eles. Isso leva tempo. Na Itália esse tipo de produção acaba sendo uma anomalia em comparação com outros modos, ao reunir características de uma grande instituição, com um tipo de criação particular de companhias independentes”, afirma o diretor. 

MACBETTU. Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245. Tel.: 3234-3000. 5ª, 6ª, sáb., 21h, dom., 18h.  R$ 40 / R$ 20. Até 8/4.

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