Junae Andreazza
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Em 'Ítaca', Cacá Carvalho vira Odisseu em retorno ao lar pós-pandemia

Casa do ator se tornou cenário para montagem online em que fala dos lugares por onde viveu, suas memórias e a morte da mãe neste ano

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 09h34

Os muitos anos de carreira de Cacá Carvalho no palco foram postos à prova em 2020. Nascido em Belém do Pará, o artista fez a trajetória de muitos talentos que queriam desenvolver um trabalho artístico no Brasil: vir para São Paulo. 

Foi na capital paulista que estreou no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho e foi para o mundo. "Ao largar Belém e vir treinar aqui eu sabia que seria uma vida errante, de muitas viagens." A aventura do ator também incluiu temporadas na Itália, e em outros lugares do mundo. Tudo sem parar. Até que veio o ano de 2020.

Nesta segunda, 7, o ator e diretor estreia Ítaca, 365, apto 23 - sua primeira produção durante a pandemia, parte do projeto Teatro Em Mov. Digital. "A pandemia tem um lado horrível, mas o confinamento e o ritmo de cumprir os protocolos me fez redescobrir memórias que todos construímos em casa."

As reflexões sobre origem, memória e confinamento alimentaram a criação do ator em sua Ítaca durante uma oficina com Matías Umpierrez, artista voltado à criação de obras que unem teatro, vídeo e intervenções urbanas. Da obra de Homero, Carvalho persegue o regresso sob a pele de um Odisseu, herói da Guerra de Tróia, que retorna à casa.

Tal como o personagem do mito, Carvalho chega de sua viagem e testemunha escombros. "Ele está de máscara, porque enfrenta uma pandemia, e vê os móveis da casa cobertos com panos brancos. Aos poucos, objetos surgem para ajudar a contar essa história", explica o ator e diretor. 

Entre os elementos, estão o cavalo de brinquedo do filho de Odisseu, em clara referência à estratégia de guerra contra os gregos,  e o vulto da esposa Penélope. "É a figura da mulher zelosa, que sempre aguardou por ele, mas hoje habita a memória." No cenário, sua presença está nos fios da trama que tece e desfaz enquanto aguardava o amado. 

Ao unir a força do mito com a vida real, Carvalho não deixa de esbarra na dor. A mãe do ator morreu neste ano e ele não teve oportunidade de participar do funeral por conta da pandemia. "Como na saga, Odisseu encontra sua mãe no mundo dos mortos. A minha faleceu no dia 7 de maio e não pude fazer o ritual. É um caminho que todos enfrentaremos", desabafa.

O espetáculo é transmitido diretamente da casa do ator. Carvalho conta que precisou se mudar temporariamente para outro espaço, deixando o apartamento 23 exclusivamente para a cenografia de Márcio Medina. "O que o público vai assistir é um encontro com um lugar em ruínas, mofado e sem luz. São sete cômodos que misturam histórias minhas, de trabalho e da família", diz Carvalho.

Na montagem que dura cerca de 42 minutos, Carvalho interagem ao vivo com o material gravado e não está sozinha. A bailarina e pesquisadora Vera Sala faz participação como Penélope e o pequeno Theo Retti, como o filho de Odisseu. "Na distância em que vivemos hoje, a peça faz um encontro de gerações", ressalta o ator. 

Com sessões todos os dias até 13, Cacá sente que sua casa ganhou o patamar de um teatro, capaz de reunir todas as plateias do mundo. "Imagino que há uma plateia logo ao lado. Não importa se é teatro online, ou qualquer nome que estão dando, eu quero fazer como se estivesse lotado. O frio depois do terceiro sinal voltou."

Serviço: Ítaca, 365, apto 23. 7 a 13 de dezembro, às 20h. Grátis. Mais informações no site

 

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