FABÍOLA GALVÃO
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'Em Contrarrevolução', Teatro Kaus cria zoológico para a civilização

Trilogia do espanhol Esteve Soler expõe a falência dos ideais da Revolução Francesa e sugere um contra-ataque

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2018 | 06h00

As instalações para contenção de imigrantes ilegais na fronteira entre os EUA e o México lembram o “aquário” que abriga o novo espetáculo do Teatro Kaus Cia. Experimental. Contrarrevolução, em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, é a reunião de textos da Trilogia da Revolução, do espanhol Esteve Soler, que debate, do outro lado do continente, o colapso do famigerado lema da Revolução Francesa, Liberdade, Igualdade, Fraternidade. “São ideias que estão em quarentena”, afirma o diretor Reginaldo Nascimento. “As palavras continuam, mas seus significados foram usurpados.”

Na montagem, a peça seleciona cenas da trilogia do autor para criar a própria perspectiva e explorar as consequências de eventos como o endurecimento da política imigratória na Europa e a liberdade sexual, por exemplo. “A peça persegue a ideia dos custos da civilização para os humanos. Junto com a convivência do coletivo, surge o terror e a violência”, acredita o diretor.

Em cena, o trio de atores não se entrega a interpretar personagens como foi em Hysterica Passio (2016), da espanhola Angélica Liddell, trabalho anterior da companhia. Nela, Amália Pereira e Alessandro Hernandez interpretaram mãe e filho de uma família assombrada por crimes que despertam o desejo de vingança do pequeno Hipólito. “Agora, estamos no limite. Somos mais seres que indivíduos”, afirma o ator. O elenco de Contrarrevolução é completado por Vera Monteiro que, em uma das cenas, aparece como uma Europa fantasmagórica e atormentada por sua própria produção intelectual.

Para a cenógrafa e figurinista Telumi Hellen, acessórios como lanternas, sprays se unem a esses sobreviventes como extensões de seus corpos. “Nesse momento em que o mundo levanta muralhas, o corpo se funde com produtos para auxiliar nas funções de defesa”, acrescenta.

CONTRARREVOLUÇÃO. Oficina Cultural Oswald de Andrade. R. Três Rios, 363. Tel.: 3221-4704. 5ª, 6ª, 20h, sáb., 18h. Grátis. Até 22/9. 

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