JOÃO CALDAS FILHO
JOÃO CALDAS FILHO

'Em Comédias Furiosas', propaganda de uma operadora de celular une sujeitos cansados da civilização

Peça de Leonardo Cortez narra quatro histórias unidas por uma estranha cabra

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2019 | 03h00

Nos últimos anos, o humor e seus artistas parecem enfrentar a mais difícil missão: fazer rir. No teatro paulistano, a fartura de dramas e seus autores especializados podem até justificar essa numerosa oferta, mas a demanda do público é a de que gargalhar é tão natural quanto se emocionar. Nesse front, Leonardo Cortez estreia nesta sexta, 31, Comédias Furiosas, no Teatro Cacilda Becker. 

O texto da peça já existia, conta o autor, mesmo que não finalizado. Foi quando estreou Pousada Refúgio em 2018, sobre tipos urbanos que buscavam a fuga da angústia das cidades em um retiro ‘gourmet’. Já em Comédias Furiosas, Cortez abandona suas personagens ao stress da capital e deseja tirar humor em um conjunto de cenas que, à primeira vista, surgem envoltas em um mistério de selfies e propagandas. “Quis trazer personagens que estivessem na iminência de explodir em situações de trabalho, na família e na interação virtual.”

As quatro histórias que serão contadas na encenação de Marcelo Lazzaratto estão interligadas com a cena que abre a montagem. Um corpo cai do alto de um prédio no meio do trânsito. Quem está lá embaixo tem as reações diversas, mas não menos inéditas, com a mulher (Gláucia Libertini)que fica ao telefone reclamando para o marido da difícil dupla jornada de mãe e funcionária. Em seguida, um publicitário (Maurício de Barros) passa mal e vai até a casa de seu sócio (Daniel Dottori), enquanto tenta investigar se foi traído pela mulher. 

Para além da dramaturgia de Cortez, vale prestar atenção à encenação de Lazzaratto, pois ela oferece pistas, como easter eggs, nos videogames. A figura de uma cabra estará em toda peça. “Ela faz parte da propaganda de uma operadora de celular”, explica o diretor.

Aos poucos, a vida de um pintor recluso (Cortez) parece mais com a rotina de um trabalhador de um matadouro. “Com o tempo, o que é visto é incompatível com o que é dito. Tudo é afetado. O texto diz uma coisa e a cena sugere outro”, afirma Lazzaratto. 

A grande obra do artista é um retrato de sua mulher ideal, e ele fica chocado quando o secretário de Cultura de uma cidade diz que a mulher parece sua mãe. Em outra cena, um diretor de cinema tem a autoria do filme questionada no dia em que recebe um grande prêmio. “Em mundo virtual, essas experiências são realidade próprias, uma espécie de autoengano”, diz o diretor. 

Seja online ou offline, a cabra da propaganda estará dissolvida nas cenas como um espectro. Ela pode ser a resposta para a fúria das personagens ou, quem sabe, uma manipuladora cruel, que ri solitária. Essa missão fica com plateia.

COMÉDIAS FURIOSAS. Teatro Cacilda Becker. R. Tito, 295. Tel.: 3864-4513. 6ª, sáb., 21h, dom.,  19h. Grátis. Estreia hoje, 31. Até 23/6. 

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