PÁPRICA FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO
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Em ‘Chaplin, o Musical’, público acompanha o nascimento de um gênio

Jarbas Homem de Mello é a estrela da peça sobre o comediante, que estreia em São Paulo no dia 14 de maio

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2015 | 03h00

A leitura de biografias e a revisão de todas as comédias foram o ponto de partida, mas o que realmente preocupava o ator Jarbas Homem de Mello era descobrir como se movimentava o corpo de Charles Chaplin. “Fiz aulas de circo, patinação, violino e observei atentamente todos seus gestos. Treinei com a bengala e o chapéu e, no primeiro dia de ensaio, respirei, aliviado: meu corpo se movia naturalmente como o do Carlitos”, conta Jarbas.

Esse passo foi decisivo para o desenvolvimento de Chaplin, o Musical, que estreia no dia 14 de maio no Theatro Net. Não se trata apenas da biografia de Charles Spencer Chaplin (1889-1977), um dos gênios da arte, mas também de sua vital importância para a evolução do cinema. Escrito por Thomas Meehan e Christopher Curtis (também autor das letras e canções originais), o musical chega ao Brasil com ar de estreia mundial - apesar de ter sido encenado na Broadway em 2012, o espetáculo nacional ganhou cenas novas escritas por Curtis, que também compôs seis canções inéditas. “Aqui, o público acompanha a vida de Chaplin encenada em um estúdio cinematográfico”, conta o diretor Mariano Detry.

Ao entrar no Theatro Net, o espectador vai descobrir, no palco, a reprodução de um estúdio cinematográfico do início do século passado, com suas câmeras hoje muito antigas e um cenário típico das comédias mudas. “Ali, um grupo de atores vai encenar a vida de Charles Chaplin, da infância paupérrima até a consagração mundial, sem se esquecer da perseguição pelos macarthistas e as inúmeras mulheres que passaram pela sua vida”, comenta o argentino Mariano Detry, responsável pela direção de Chaplin, o Musical.

Há anos radicado em Londres, Detry é especialista do gênero, atuando como diretor residente de espetáculos como Love Never Dies e Les Misérables – ele esteve em São Paulo em 2001, durante a montagem de Les Mis, quando conheceu Jarbas Homem de Mello. “Quando eu e a Claudia (Raia) decidimos montar Chaplin, logo pensamos no Mariano, que, além de talentoso, é perfeccionista como nós”, conta Jarbas.

Detry aceitou o convite, mas decidiu sugerir modificações no roteiro original de Christopher Curtis e Thomas Meehan. A proposta foi aceita e a montagem que inicia temporada no dia 14 em São Paulo é praticamente uma estreia mundial. “Contamos até com seis canções inéditas, criadas por Christopher especialmente para essa versão”, conta o diretor.

Assim, Chaplin, o Musical promove uma viagem no tempo para mostrar a vida e a carreira do grande artista, desde sua primeira performance, quando ainda era um garoto pobre em Londres (“Ali, há um clima típico de Charles Dickens”, observa Detry), até sua consagração como criador de obras fundamentais do cinema, como Luzes da Cidade, O Garoto, Tempos Modernos e O Grande Ditador, entre outros. “Ao narrar a trajetória de Chaplin, o espetáculo mostra também a evolução da indústria cinematográfica, da qual ele foi fundamental”, diz o diretor.

De fato, Chaplin não apenas testava novas formas de trabalho como também utilizava a própria experiência como fonte de inspiração. Abandonado pelo pai alcoólatra e vivendo seus primeiros anos angustiado de ver a mãe ser levada para o asilo e, como consequência, como menor abandonado, de ser perseguido pela polícia, Chaplin desenvolveu como poucos o instinto de sobrevivência. “Quando Chaplin entrou nos estúdios Keystone para rodar ‘filmes de perseguição’, corria mais rápido e mais longe que seus colegas do music-hall, pois, embora não fosse o único cineasta a descrever a fome, foi o único a conhecê-la”, comentou o cineasta francês François Truffaut, um dos inúmeros admiradores de Chaplin.

Também o crítico André Bazin apresentava a figura do vagabundo como um personagem mítico. “O público o reconhece pelo rosto, sobretudo, pelo bigodinho em trapézio e o passo de ganso, que, mais que o hábito, tampouco faz o monge”, escreveu. Para o crítico, o vagabundo buscava contornar a dificuldade, em lugar de resolvê-la. “Uma solução provisória lhe basta, como se o futuro não existisse para ele.”

Mariano Detry revelou profundo conhecimento dessa figura peculiar. Assim, sua montagem será marcada pela exibição, em telões, de algumas cenas famosas criadas por Chaplin para o cinema, enquanto que outras, de forte impacto, serão reproduzidas em cena – como o discurso final de O Grande Ditador, até hoje exemplo de texto humanista. “Chaplin acumulava ideias que, se não eram utilizadas naquele momento, serviram no futuro – é o caso do globo em forma de balão utilizado no mesmo Ditador”, completa Jarbas.

Colecionador de desafios (viveu o icônico mestre de cerimônias em Cabaret e sapateou como poucos em Crazy for You), Jarbas enfrenta agora talvez o maior deles – desde setembro do ano passado, vem condicionando seu corpo ao gestual do comediante, cujas sutilezas servem para produzir o riso. “Ele foi um gênio, e ainda teve uma vida atribulada.”

Nesse ponto, torna-se importante a presença do irmão Sidney, vivido por Marcello Antony. “Ele procura dar equilíbrio à vida de Charles, especialmente quando conquista a fama”, conta o ator. “Quando despede Sidney, Charles passa a enfrentar problemas como a perseguição pela simpatia ao nazismo. É a reconciliação de ambos que reestrutura sua vida.” Outros personagens importantes são a mãe Hannah (Naíma), a esposa Oona O’Neill (Giulia Nadruz), a crítica ferrenha Hedda Hooper (Paula Capovilla) e Mack Sennett (Paulo Goulart Filho), fundador dos estúdios Keystone. E a coreografia é do experiente Alonso de Barros.

Detalhe

A bengala usada no musical foi importada da Inglaterra. Afinal, era necessário um modelo com flexibilidade suficiente para entortar e não quebrar

CHAPLIN, O MUSICAL 

Theatro Net. Rua Olimpíadas 360, Shop. V. Olímpia, 5ª e 6ª, 21h; sáb., 18h e 21h30; dom., 20h. De 14 de maio a 12 de julho. 

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