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Em 'Autobiografia Autorizada', Paulo Betti revisita suas memórias

Ator apresenta no Rio monólogo sobre sua infância e adolescência

Daniel Schenker - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 19h05

RIO - De certa maneira, Paulo Betti vem preparando o monólogo Autobiografia Autorizada - em cartaz no Rio - há 35 anos. É que entre 1980 e 1992, o ator escreveu compulsivamente em cadernos. Só parou quando começou uma coluna de teor autobiográfico no jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, espaço que encerrou em 2010. “Tenho mania de memorialista. Tendo a registrar tudo. Minha personalidade é nostálgica, não por achar que o passado era melhor, mas por gostar de lembrar. Ao estimular a memória, você passa a construí-la. Nesse sentido, a memória é uma invenção”, afirma Betti.

Apesar de estar completando 40 anos de carreira, Betti não traz à tona sua trajetória profissional nessa montagem que dirige ao lado de Rafael Ponzi. Apresenta, isto sim, um recorte da sua jornada, voltado para a infância e a adolescência em Sorocaba. Nascido em Rafard (SP), Betti foi o caçula dos 15 filhos de Ernesto e Adelaide. Oito, porém, morreram próximos ao parto. “As condições eram difíceis na roça”, diz Betti, que, agora, tem três irmãos vivos. 

A juventude em Sorocaba rendeu muitas histórias. “O bairro onde fui criado era uma espécie de quilombo, com 90% da população negra. Meu avô era um imigrante italiano que trabalhava para um fazendeiro negro. Hoje percebo como um universo pobre, mas rico em vivência”, avalia. Tanto que Betti despertou para o teatro nesses primeiros anos. “Havia um bom ensino naquela época, um teatro amador forte. Fazia teatro de bonecos no fundo do quintal da minha casa”, conta. Paulo Betti morou em Sorocaba até os 20 anos. Autobiografia Autorizada termina justamente quando o ator vai para São Paulo com o intuito de cursar a Escola de Arte Dramática (EAD). 


Essa nova etapa no seu percurso forneceria material para outro monólogo. Na EAD, Betti travou parceria com o seu professor, Celso Nunes, que o dirigiu em espetáculos como Victor ou as Crianças no Poder, de Roger Vitrac (primeiro trabalho do grupo Pessoal do Victor), e Os Iks, de Peter Brook e Jean-Claude Carrière. Continuou o elo com Nunes na Unicamp. “Nossas parcerias sempre deram certo, ainda que eu tenha estado na liderança como professor, diretor teatral, chefe e coordenador do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp. Betti nunca brigou ao ter de aceitar as decisões de professores, diretores e chefes”, realça Celso Nunes.

Ao longo do tempo, Betti também se destacou como diretor. Começou a se exercitar na função por acaso. “Fui convidado para dar um curso em Sorocaba pela Secretaria de Cultura do Estado. Tinha traduzido Cerimônia para um Negro Assassinado, de Fernando Arrabal, e resolvi montar com os alunos”, evoca. Nos anos seguintes, ele colheu elogios e prêmios pela direção de outros espetáculos, como Feliz Ano Velho, adaptação do best-seller de Marcelo Rubens Paiva, e Assim é se lhe Parece, de Luigi Pirandello.

Presença frequente no teatro, no cinema e na TV, Betti firmou vínculos duradouros - com o ator José Wilker, o cineasta Sergio Rezende e o novelista Aguinaldo Silva. Vale mencionar o ator Emilio de Mello, com quem contracenou na montagem de Viagem a Forli, de Mauro Rasi. “Em Viagem..., interpretávamos o mesmo personagem em diferentes fases da vida”, frisa Mello, acerca de Juliano, alter ego de Rasi. “Escrevi um livro sobre o personagem e dei para Betti. Ele me deu um cachimbo, objeto familiar, e falou: ‘coloca na mochila do personagem’. Na última apresentação que fez, antes de ser substituído por Daniel Dantas, eu devolvi o cachimbo para ele”, relata Mello, que dirigiu Betti em Deus da Carnificina, de Yasmina Reza.

Cabe sublinhar a conexão com Eliane Giardini. Ambos foram casados durante 25 anos. E voltarão a atuar juntos na versão cinematográfica de A Fera na Selva, de Henry James, texto transportado para o teatro, sob a condução de Luiz Artur Nunes, na década de 1990. “Eliane leu essa obra de James e encontrou uma adaptação de Marguerite Duras para teatro. Ela iria montar com Carlos Augusto Strazzer, mas ele adoeceu. Deixamos de lado e fomos fazer Perversidade Sexual em Chicago”, explica Betti, citando a encenação do texto de David Mamet. “Depois retomamos A Fera na Selva e chamamos Luiz Artur Nunes para assinar outra adaptação”, complementa Betti, que, por esse trabalho, dirigido por Nunes, ganhou o Prêmio Shell de melhor ator. O projeto do filme foi viabilizado graças à entrada da empresa Flextronics. “De início, pensei em aproveitar na Casa da Gávea”, assume Betti, referindo-se ao centro cultural que recebeu um importante aliado - Antônio Rodrigues, da rede de bares Belmonte. A Fera na Selva será norteada pelo afeto. Basta dizer que as filmagens ocorrerão em Sorocaba. “Contaremos com colegas de infância e parentes na figuração.”

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