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Em 'A Reunificação das Duas Coreias', Joël Pommerat fala das possibilidades do amor

Espetáculo mostra as diversas formas em que o afeto se manifesta

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2016 | 05h00

No escuro, duas faxineiras iluminam o palco com suas lanternas. Quando a luz se acende, percebe-se o corpo de um homem pendurado no teto, enforcado. É o marido de uma terceira, que logo chega e desfia impropérios contra o marido, de quem se separou – na verdade, o sujeito ali, sem vida. As amigas tentam impedir que a mulher descubra a tragédia, enquanto ela, depois de muita raiva, começa a revelar a ternura que de fato sente pelo marido, confessando até uma vontade de tentar uma reconciliação.

É dessa mistura de surpresa com um texto agridoce, por vezes melancólico, que se constitui a peça A Reunificação das Duas Coreias, que estreia sexta-feira, dia 16, no Teatro MorumbiShopping. Trata-se do conjunto de 18 cenas que, embora independentes entre si, tratam de temas comuns e caros a qualquer ser humano. “É um passeio pelas diversas formas em que o amor, o afeto e a falta deles se manifestam”, declara a produtora Maria Siman que, fascinada pelo texto, comprou os direitos e logo viabilizou a montagem nacional, dirigida por João Fonseca e interpretada com visível sensibilidade por Leticia Isnard, Bianca Byington, Solange Badim, Marcelo Valle, Gustavo Machado, Veronica Debom e Reiner Tenente – no Rio, Louise Cardoso integrou o elenco, mas, devido às gravações de Malhação, da Globo, não pôde vir a São Paulo.

Que o espectador não espere, porém, temas políticos por conta do título – A Reunificação das Duas Coreias trata da temática do amor em suas diversas formas e manifestações. O título é uma licença poética extraída da fala de uma das personagens que explica à mulher sem memória como os dois se amavam, quando se conheceram: “Foi como se a Coreia do Sul e a Coreia do Norte abrissem suas fronteiras e se reunificassem e que as pessoas que tinham sido impedidas de se ver durante anos se reencontrassem”.

A Reunificação das Duas Coreias confirma a coerência da obra de seu autor, o francês Joël Pommerat, em sua exigente busca artística sobre as relações humanas e o existencial. É o que pode observar o público brasileiro, brindado com montagens de suas peças. A começar por 2012, com a estreia de Esta Criança, dirigida por Márcio Abreu e estrelada por Renata Sorrah, na qual o autor disseca infelicidades familiares. Já em 2016, a Mostra Internacional de Teatro trouxe, entre seus destaques, dois trabalhos essenciais do francês: Cendrillon, uma releitura do conto de fadas Cinderela, e principalmente Ça Ira, monumental ficção política contemporânea inspirada no processo revolucionário de 1789, na França.

Com A Reunificação, Pommerat trilha por outra estrada: enquanto Ça Ira traz vestígios evidentes de um épico, a peça que chega a São Paulo é marcada pela fragmentação no enredo, com cenas que necessariamente não se fecham, não são continuações, mas se completam. Fala de amor falando do desamor, sempre de maneira inusitada e surpreendente. Como define João Fonseca, “todas as cenas têm nomes emblemáticos – Divórcio, Separação, Casamento. Bom frisar que o diretor evita o lugar-comum, o clichê. A forma como aparecem as discussões e a questão do amor é sempre inusitada. Não é porque está na moda, mas eu acho tão necessário e tão bacana falar desse encontro e reencontro”, diz João. Sobre o trabalho, Pommerat respondeu por e-mail às seguintes questões.

O sr. é um artista que gosta de trabalhar também em fragmentos. Como funciona esse processo caleidoscópico? É mais fácil?

Na verdade, A Reunificação das Duas Coreias é uma sucessão de fragmentos, como pequenos relatos independentes em torno de um tema comum. O fragmento é uma forma que aprecio para capturar um instante de vida, entrar rapidamente na ação, de maneira bastante realista, neste espetáculo. Viver o instante: há aqui alguma coisa própria do teatro e da experiência humana. O fragmento permite também a livre circulação do sentido, o espectador é levado a criar, ele próprio, os elos. De fato, escrevi diversas obras em fragmentos, como A Reunificação das Duas Coreias, ou Cet Enfant, mas gosto também de desenvolver narrativas mais elaboradas como em Ma Chambre Froide, ou a minha última criação Ça Ira – Fin de Louis, uma epopeia inspirada na revolução francesa.

Em A Reunificação das Duas Coreias, cada cena está impregnada de uma desoladora ambiguidade. É esta sua maneira de ver as relações humanas?

Procuro mostrar a complexidade das experiências humanas, portanto existe realmente ambiguidade, ambivalência. Em meu teatro tento evitar a simplificação. Somos feitos de contradições. Hoje o acúmulo de dimensões incompatíveis ou contraditórias é uma grande tendência da nossa relação com o mundo e os outros. O que nos une, o que nos faz existir individualmente e coletivamente? Esta questão da liberdade individual e da coexistência é importante em meu teatro.

A perspectiva da peça parece estar bem resumida na explicação de uma personagem sobre a sua partida: “Amor não é suficiente”. O sr. concorda?

O que conta é o que você pensa a respeito. Não procuro fazer passar uma mensagem em meus espetáculos. Não coloco na boca dos meus personagens o que penso, minhas ideias mudam muito e são pouco interessantes. O que procuro fazer é apresentar os problemas e girar em torno deles para estimular o olhar, sacudir nossas representações, de uma maneira surrealista.

O senhor acredita que a amargura e o tédio são os grandes males contemporâneos?

Se fossem apenas os únicos males da sociedade contemporânea... Não, há demônios muito mais perigosos atualmente, humanos e políticos.

O senhor exorciza seus próprios medos por meio das suas peças?

A Reunificação das Duas Coreias é, sem dúvida, uma das minhas peças mais íntimas. Com frequência sou atraído para situações extremas porque o teatro é um jogo que nos permite reconstituir a realidade sem sofrê-la. E nos permite manter os olhos abertos face a situações ou sentimentos difíceis.

Que lugar tem o humor em seu trabalho?

Em A Reunificação, eu me permito mais humor do que em espetáculos anteriores. Eu sempre tive medo de que o humor me tirasse da realidade, mas na verdade de modo nenhum isto ocorre como vemos por exemplo nas peças em um ato de Chekhov, uma das minhas inúmeras influências.

O sr. parece ser um artista que gosta de expor nossas falhas por meio dos personagens. Acha que tem responsabilidade, como artista, de fazer isto?

Não acho que o teatro pode mudar o mundo, mas talvez nosso olhar a respeito dele. A principal responsabilidade que sinto é para com a verdade humana daquilo que represento. Não me sinto verdadeiramente responsável para com o público, que é livre de pensar o que quiser e desejo orientar o menos possível. Por que pensamos que o artista é uma pessoa mais interessante do que uma outra que teria uma mensagem a passar?

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