OTÁVIO DANTAS
OTÁVIO DANTAS

Em 'A Domadora', Paula Picarelli vive circense diante de ameaça animal

Temas como velhice e o futuro incerto invadem o picadeiro da vida com a força de um elefante

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2017 | 03h00

O drama de uma mulher que está diante de uma fera de pelo menos três toneladas com certeza vai deixar tensa a plateia que assiste à cena. Mas o que está do lado de fora do picadeiro é o que atormenta a cabeça de A Domadora, monólogo de Paula Picarelli que estreia nesta quinta-feira, 27, no Sesc Pinheiros. 

Não que o tamanho e a força de uma elefanta não amedrontem a artista circense. Na montagem, o drama psicológico expõe os últimos 15 segundos do seu número. O objetivo é que o animal toque o nariz da domadora com sua pata gigantesca. Enquanto isso não acontece, a pressão do dono do circo e de seu próprio corpo acentuam a tensão dessa mulher. “Estou chegando perto dos 40 anos e percebi que comecei a sentir alguns medos e receios relacionados à velhice”, afirma a atriz.

Sua estreia na dramaturgia ao lado do diretor Otávio Dantas teve uma pesquisa que passou por diversas obras que retratam as condições dos idosos na sociedade, como A Velhice, de Simone de Beauvoir, e A Velha, de Barbara G. Walker. “Se você definir o medo como um perigo iminente, ou receio de alguma coisa, é preciso questionar as razões desse temor”, conta Paula. 

Dessa maneira, o lugar do picadeiro surgiu como um espaço de coragem, pluralidade artística e de aceitação ao inadequado. “O circo sempre foi um local acolhedor para pessoas que precisavam de trabalho, ou que não encontravam apoio na sociedade.” Para tanto, a atriz saiu a campo e entrevistou integrantes de famílias tradicionais do circo. “Descobri boas histórias de pessoas que construíram suas vidas no picadeiro.”

No palco, Paula explica que a construção da personagem partiu de estudos sobre as particularidades dos sistemas do corpo humano, como o digestório e respiratório, por exemplo. O objetivo foi compreender e canalizar essas energias na interpretação. “É um modo de melhorar a qualidade da presença na cena”, diz sobre o método chamado Body Mind Movement, bastante utilizado como treinamento na dança. No caso do estômago, ela procurou reunir as características reais e simbólicas dessa parte da anatomia como ponto de tensão. “É a centralidade do corpo e dos órgãos vitais. O que se reflete nesse jogo de dominação animal.”

A atriz que despontou na televisão no papel de Rafaela, par romântico de Clara, em Mulheres Apaixonadas (2003), explica que os perigos que ameaçam o corpo da domadora vêm, portanto, de diversas frentes. “Eu ataco a domadora de todos os lados, para construir essa crise. Além da velhice, há a relação difícil com o dono do circo”, ressalta. 

Para ela, essa situação vai de encontro à realidade brasileira. “Esse novo governo vem tratando os mais velhos como inúteis e a discussão em torno da aposentadoria diz que é algo caro demais. Logo, para seguir é preciso descartá-los.” 

A DOMADORA

Sesc Pinheiros. R. Pais Leme, 195, telefone 3095-9400. 5ª, 6ª e sáb., 20h30. R$ 25. Estreia hoje, 27. Até 27/5.

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