Alvaro Dominguez/The New York Times
Alvaro Dominguez/The New York Times

Em 23 de abril, Shakespeare completou 456 anos e comemorou seu aniversário online

A relação entre o autor e a tecnologia vem de longa data, da invenção do telefone aos CD-ROMS

Alexis Soloski, The New York Times

18 de maio de 2020 | 10h00

Recitaram-se sonetos, declamaram-se solilóquios a bichos de pelúcia, enfeitaram-se bolos com dúbias citações. Procurando a hashtag #ShareYourShakespeare [compartilhe seu Shakespeare] no Instagram e no TikTok, vi bonequinhos de Playmobil encenando A Tempestade e Ofélia se afogando numa banheira. No Twitter, duas tartarugas apresentaram a cena da varanda de Romeu e Julieta. Com conexão à internet, o mundo inteiro de repente virou um palco. E muitos desses palcos estrearam peças de Shakespeare.

A relação entre Shakespeare e a tecnologia vem de longa data. Já na década de 1960, os programadores criaram versões de suas peças lidas por máquinas e, nos anos 1980, suas obras completas foram disponibilizadas em CD-ROMS. Nos anos 90, as peças migraram para a internet. Em 1993, um canal de bate-papo chegou a apresentar Hamlet online, uma versão chamada Hamnet, cheia de piadas e trocadilhos de programadores.

Mais recentemente, as peças foram adaptadas para SMS e Twitter. Em 2010, a Royal Shakespeare Company (RSC) espalhou Such Tweet Sorrow, uma versão de Romeu e Julieta, pelo Twitter, YouTube, Tumblr e Facebook.

E, no mês passado, quando a pandemia desceu o pano das apresentações ao vivo, a obra de Shakespeare se proliferou em vídeos e gravações de áudio. #ShareYourShakespeare, a hashtag criada pela Royal Shakespeare Company e pela Folger Shakespeare Library, atraiu milhares de postagens e dezenas de milhões de visualizações. Na semana do aniversário de Shakespeare, direto da minha mesa, participei de uma ‘A tempestade’ interativa, acompanhei uma leitura de Rei Lear pelo Zoom, dirigida por Stacy Keach, assisti a ensaios de um Macbeth para iPhone, vi Patrick Stewart recitar sonetos e pesquisei mais conteúdos medíocres sobre Stratford do que qualquer pessoa em sã consciência deveria pesquisar.

“Ninguém acha que Shakespeare faz mal a ninguém, certo?”, disse William Worthen, professor da Universidade Columbia e autor de Shakespeare, Technicity, Theatre [Shakespeare, tecnicidade, teatro]. aos “Então, numa época em que todo mundo está precisando de alguma coisa para animar o espírito, Shakespeare meio que faz sentido”.

Depois da morte de Shakespeare, suas peças se tornaram uma maneira de legitimar novas tecnologias. “As novas formas de mídia são sempre testadas com Shakespeare”, disse Michael Witmore, diretor da biblioteca Folger. Quando Alexander Graham Bell quis testar o telefone, ele pegou emprestado citações de Hamlet. E, ao apresentar o gramofone, ele fez seu pai gravar mais Hamlet no cilindro. Esses trechos de alguma maneira lhe conferiam autoridade. Hoje, quando artistas brincam com formas novas, como realidade virtual ou captura de movimentos em tempo real, é Shakespeare quem fornece o conteúdo.

Por que Shakespeare? “O lance de Shakespeare é que as histórias são muito boas”, disse Zoë Seaton, que dirigiu A tempestade pelo Zoom. “A melhor coisa para experimentar um novo formato era algo bem robusto como Shakespeare e bem forte em termos de narrativa e personagens”.

A fartura de novos conteúdos é muito eloquente do alcance e onipresença de sua obra, da acessibilidade de suas peças e da certeza de que, se você compartilhar um trecho de pentâmetro, será ouvido, reconhecido e retuitado. Suas peças - e os valores humanistas que elas trazem consigo - proporcionam uma pedra de toque cultural quando o resto de nossas vidas parece tão instável.

Se a #ShareYourShakespeare - que traz também o cachorro de Witmore recitando um verso de Noite de reis - passa a sensação de uma jogada de marketing, trata-se de uma jogada de marketing que fez um uso excelente dos bloquinhos de Lego e criou uma comunidade, mesmo que online. “É Shakespeare por todos e para todos como um jeito de unir as pessoas”, disse Kerry Radden, que supervisiona a audiência e o marketing da RSC.

Ninguém está dizendo que um Coriolano feito de Lego ou uma citação de “Ser ou não ser” escrita com grãos de feijão em cima de uma torrada [Two beans or not two beans, that is the question] possam substituir o teatro ao vivo. Como disse Gregory Doran, diretor artístico da RSC: “Para mim, no fim das contas, é impossível substituir a espontaneidade do ator se apresentando ao vivo”.

Há dois anos, em colaboração com teatros, escolas e empresas de tecnologia, a RSC criou a Plateia do futuro, uma iniciativa cujo objetivo é antecipar como o público virá a vivenciar a performance ao vivo. Encontrei um velho comunicado de imprensa, de janeiro de 2019, que trazia um parágrafo dizendo que “mesmo em casa, onde quer que estejam, as pessoas irão experimentar as apresentações ao vivo como nunca antes”. Parece profético - embora não mencione especificamente a foto que acabei de ver agora dos coelhinhos de pelúcia da Calico Critters fazendo a primeira cena de Rei Lear.

Então, este momento online já estava chegando e Shakespeare sempre teve a senha de acesso. No mundo de língua inglesa, recorremos a Shakespeare sempre que estamos tentando nos adaptar às novas tecnologias, ou simplesmente quando nos sentimos estranhos em relação ao nosso mundo e ao nosso lugar dentro dele.

Nessa rolagem de tela infinita, a explosão de Shakespeare online tem menos a ver com Shakespeare e mais a ver com a sensação de comunidade virtual que o conhecimento compartilhado de suas obras nos suscita. Com o teatro ao vivo e outros prazeres públicos indisponíveis, montamos o cenário com bichinhos de pelúcia, compartilhamos Antônio e Cleópatra, filmamos tartarugas e afogamos Ofélia repetidas vezes. Porque, se não o fizéssemos, teríamos de admitir, como disse Hamlet, que o resto é silêncio. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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