Eduardo Chamon
Eduardo Chamon

Eliane Giardini e Marcos Caruso vivem um casal que não se larga mesmo em crise

Peça de Leilah Assumpção, 'Intimidade Indecente' aposta nas rachaduras de uma relação longeva

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2022 | 05h00

Quando voltar ao palco do Teatro Renaissance, nesta sexta-feira, 17, o ator Marcos Caruso estará fechando novamente um ciclo. Foi ali que, em 2001, ele estreou a peça Intimidade Indecente, com texto de Leilah Assumpção, espetáculo com o qual viajou para várias capitais brasileiras e também Portugal. Agora, mais de 20 anos depois, Caruso está de volta em nova temporada do mesmo texto, estreando novamente no Renaissance.

“Quando fui convidado pela produção para encenar novamente a peça, inicialmente recusei, pois estava interessado em projetos novos, não em retomar antigos”, conta ele ao Estadão. “Mas, ao reler o texto da Leilah, voltei a ficar fascinado e aceitei.” Assim, depois de excursionar por seis cidades portuguesas durante dois meses e passar outros dois em cartaz no Rio, Caruso retorna, agora com nova companheira de cena: depois de Irene Ravache e Vera Holtz, é a vez de outra grande atriz assumir seu contraponto no palco, Eliane Giardini, sob a direção de Guilherme Leme Garcia.

“São três experiências estimulantes porque, como são intérpretes excepcionais, elas me desafiam em cena.” De fato, o que o público acompanha durante 1h30 é o embate de um casal com dois seres que, embora com opiniões distintas sobre o relacionamento, ainda se respeitam. A peça conta uma história de amor na maturidade: aos 60 anos e bem de vida, Roberta e Mariano decidem se separar. O motivo é a descoberta de que o marido se sente atraído por uma amiga da filha.

A trama prossegue com outros três momentos, com os personagens envelhecendo uma década em cada segmento, até chegar aos 90 anos. E o passar do tempo é encenado apenas com mudança física e vocal dos atores, sem maquiagem ou troca de figurino.

Nesse tempo, um e outro tentam a reaproximação, mas não conseguem reação positiva do parceiro. “A peça fala sobre quatro momentos muito emblemáticos da vida desse casal”, comenta Eliane. “É um casamento que não termina, uma separação que não dá certo. É sobre esse casal que tem uma afinidade tão grande que continua junto para o resto da vida, independentemente do estado civil ou da condição geográfica.”

De fato, quando escreveu o texto no início dos anos 2000, Leilah Assumpção buscava uma solução entre várias possíveis. “É a história de um casal que achou seu jeito de ser feliz, sem que seja essa uma receita única de sucesso”, comenta a dramaturga que, com essa peça, atingiu um alto patamar de sofisticação em sua carreira, que se notabilizou ao retratar a posição da mulher brasileira da classe média.

Em Roda Cor de Roda, por exemplo, que estreou em 1975, uma atriz então pouco conhecida, Irene Ravache, vivia Amélia, uma mulher que, ao se descobrir traída pelo marido, se transformava na prostituta Batalha. Se hoje parece uma atitude radical, é preciso lembrar que a transformação psicológica de Amélia era recurso metafórico usado pela autora, diante da vigilância da censura, para exibir a rebeldia como bandeira.

Anos antes, em 1969, em Fala Baixo, Senão Eu Grito, a grande Marília Pêra viveu Mariazinha, a solteirona sexualmente reprimida que desperta para um mundo de aventuras quando um ladrão invade seu quarto em uma madrugada. O texto de Leilah explodia em vitalidade e fazia eco com os movimentos feministas que então se espalhavam pelo mundo.

“Agora, Roberta, de Intimidade Indecente, é uma mulher que tem suas conquistas no campo profissional e não depende de ninguém para sobreviver, mas sobram problemas amorosos”, comenta Eliane. O que é exemplificado logo na primeira cena do espetáculo, que revela um casal de meia-idade cuja relação agora se baseia mais na cumplicidade e nas vivências comuns do que na atração física. Mariano, porém, rompe tal estabilidade ao confessar que se sente atraído por uma mulher mais jovem.

“Ele quer algo novo, mas com o tempo descobre que o importante era o afeto que trocava com Roberta”, comenta Caruso, que vê nesse detalhe toda a essência da peça. “Sempre busco, nos textos que interpreto, uma frase que justifique minha presença naquele trabalho. E aqui é quando os personagens estão com 80 anos e Mariano diz: ‘Não somos mais urgentes para nossos filhos’. Com a pandemia, essa sensação de solidão se aguçou e a peça fala da necessidade que temos do outro, de como o afeto é importante. O homem hoje revela mais facilmente sua fragilidade, não existe mais espaço para aquele macho tradicional.”

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