Fernando Young
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Eliane Giardini e Antônio Gonzales ironizam casamento em peça de Albee

'Peça do Casamento', de Edward Albee, traz os dilemas de um casal branco e heterossexual dos anos 1980

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2019 | 05h00

É da rotina de pesquisadores e até de artistas usar fenômenos sociais como objetos de estudo. Já dramaturgos como Edward Albee (1928-2016), sempre serão lembrados por transformar temas e tabus sociais em verdadeiros alvos para o ataque. É com esse foco que estreia nesta sexta, 8, o espetáculo Peça do Casamento, no Sesc Santana.

O tema é caro ao autor de peças como A Cabra ou Quem É Sylvia? e Três Mulheres Altas. Sua obsessão por dissecar o matrimônio, considerado por ele como “a estrutura social fundamental da cultura contemporânea ocidental”, atingiu em cheio o diretor Guilherme Weber. “O casamento é um fetiche para Albee e a peça percebe como esse assunto se desdobra na sociedade, nos mais diversos âmbitos, como o social, econômico, político, de gênero e desejo.”

Um dos exemplos é o clássico Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, eternizado no cinema pela interpretação de Elizabeth Taylor no papel da mulher-fúria chamada Martha. “Gosto muito de autores que constroem uma carreira perseguindo um certo assunto”, diz Weber. “Quando olhamos para sua obra, conseguimos compreender o que foi abordado e o funcionamento na sociedade, para além dessa obsessão do autor. No caso de Albee, o matrimônio se torna a investigação de uma vida, uma vingança.”

Em cena, temos um arranjo de família nada peculiar e bastante sujeito ao humor dos tempos de hoje: um casal branco e heterossexual dos anos 1980. Interpretados por Eliane Giardini e Antônio Gonzalez, a dupla reúne a complexidade das demais personagens de Albee. A mulher demonstra um caráter forte, permeado por erotismo, além de ser desbocada e neurótica. Já o homem sofre por não enxergar sentido em um casamento de 30 anos, como se a solidão fosse um terceiro parceiro inevitável em uma relação duradoura.

É dessa condição medíocre que Albee ressalta seu humor e seu olhar, transmitido aqui, de um jeito sagaz, conta Weber. “A história do casal é observada por um menino gay, o que concede ao texto um ambiente fértil para a paródia, o pastiche”, explica. Para ele, Albee já desejava reafirmar sua vingança retomando a si mesmo quando criança. “Durante toda a carreira, Albee vai recriar memórias da infância e de sua família.”

Reféns de um olhar esperto e nada condescendente, o casal passa uma noite em claro revisitando os últimos 30 anos. E aqui surge uma camada interessante ao espetáculo. Marriage Play, o nome original não deixa a dever ao ampliar o sentido de brincadeira, jogo e espetáculo que cabem na mesma palavra, incapaz de ser expresso apenas em “peça”. Na montagem, o casal vai relembrar de eventos especiais como a lua de mel, o nascimento dos filhos e do passado agradável, como forma de avaliar o presente turbulento. Esse retorno ao passado expõe um certo metateatro, defende o diretor. “O autor não deixa de sobrepor papéis, como se o arquétipo do casamento, o matrimônio com toda a cerimônia e significado para a sociedade não deixasse de ser um também papel que se interpreta.”

Na cena, Weber recorre ao uso de diversos espelhos. “Além da aparente condição de refletir um ao outro, o palco também transfere essa condição à plateia. De alguma maneira o casamento é uma instituição que atinge a todos, quando não cônjuges, mas filhos, irmãos, parentes”, diz Weber. 

Peça do Casamento não é a primeira investida de Weber no tema. Em 2016 ele estreou Os Realistas, estrelado por Fernando Eiras, Mariana Lima, Emílio de Mello e Debora Bloch. No texto do dramaturgo inglês Will Eno, acompanha-se a trajetória de dois casais comuns que se conhecem em uma paisagem campestre e passam a enfrentar juntos temas como a falência da linguagem, o fim da vida, mas sempre com a ironia na ponta da língua.

Para fechar a trilogia, Weber vai adentrar o terreno das palavras do dramaturgo das “comédias sérias” Tom Stoppard. Em De Verdade (The Real Thing), o autor também invoca o metateatro. A peça explora a ideia de realidade versus aparência focada em relacionamentos com a história de Henry, um dramaturgo que carrega as mesmas atribuições que a crítica deu a Stoppard. Com bom humor e sofisticação, ele vai reclamar de uma peça escrita por Broddie, um ativista escocês preso por botar fogo em uma coroa de flores durante um protesto.

Da família, seu eterno visitante, e mestre do ‘camp’

Ao lado de Miller, O’Neill e Tennesseee Williams, Edward Albee fez de sua sexualidade arma de devastação da hipocrisia

Bem próximo do conceito de kitsch (lixo) nas artes, o estilo camp pode ser definido como uma grande atração para algo de mau gosto ou irônico. Se o primeiro diz respeito a objetos de valor barato, dos gostos populares e do acúmulo da falta de sofisticação, o camp é mais impalpável, expresso nas artes performáticas, na música, na dança, e também no teatro de Edward Albee. 

O diretor Guilherme Weber, que estreia Peça do Casamento (veja acima) lembra que na peça Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, clássico do dramaturgo norte-americano, há um movimento que desloca termos e expressões para recombiná-los na dramaturgia, no melhor estilo camp. “O título da peça já é uma evolução da cantiga presente em contos infantis, com a presença do Lobo Mau. Na peça, ela é cantada pela casal quase de forma aleatória, mas dessa vez com o nome de Virgínia Woolf”, lembra. 

O filme estrelado por Elizabeth Taylor também dialoga com outra pérola do cinema. Em A Filha de Satanás (Beyond the Forest), uma Bette Davis entediada desce as escadas, olha para a sala da casa e diz: “What a Dump! (Que l ixão!)”. “Albee escreve a mesma fala para Martha na peça, que também está no filme.” Weber também não perdeu a oportunidade. “Decidi fazer um terceiro deslocamento para a personagem de Peça do Casamento.” Ele acrescenta que Albee foi mestre em construir figuras femininas complexas e que não cabiam em si mesmas. “Dizem que suas personagens mulheres são quase como bichas tristes.” 

Nesse caminho, a vida e a sexualidade de Albee nunca ficaram de fora de suas obras. Criando situações inusitadas, o autor expressou o eterno desconforto de seu desejo desviante no ambiente familiar. Em Zoo Story, o protagonista da peça destilava o ódio pela família. Em Três Mulheres Altas, escrita após a morte da mãe adotiva de Albee, o autor retrata a relação de uma das mulheres com o filho gay.

Em Peça do Casamento, esse olhar é mais central ao colocar os dramas de um casal sob o ponto de vista de um menino gay. “É com esse ângulo que o texto ganha a chance de jogar com a paródia e a paráfrase, acentuando o humor”, defende o diretor. 

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