GABRIELA BILÓ
GABRIELA BILÓ

Elevador desloca atores e plateia em 'Refluxo'

Ascensorista enjoado guia público no prédio cujos moradores tem abstinência de afeto

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2017 | 03h00

Um olhar inconformado diante da violência da sociedade contemporânea é o ponto de partida da peça Refluxo, que estreia nesta quarta-feira, dia 12, no mezanino do Centro Cultural Fiesp.

A dramaturga Angela Ribeiro concebeu o texto pensando nos atos rotineiros que passam despercebidos por quem não os praticou ou por aqueles que não têm nenhum interesse específico no acontecido. Na trama, que se desenrola em um edifício residencial, dois incidentes precipitam toda a ação em um dia de fortes temporais na cidade.

Um deles é a grande obstrução nas linhas do metrô e o outro é a queda de uma árvore em frente do prédio, da qual o ascensorista Dario (Maurício de Barros) salva um pássaro. A ave representa uma esperança no edifício nada convidativo, nem mesmo para um ser humano. Na peça, o público acompanha a rotina do trabalhador que, naquela manhã, sofre com uma crise de refluxo.

Embora exerça uma profissão quase extinta, ele tem grande representatividade entre os nordestinos, lembra a dramaturga nascida em Belém. “Ele é uma figura oprimida, em um trabalho que poderia ser executado pelos próprios usuários do elevador.” Os moradores são tipos bastante comuns em suas realidades, mas o tom histérico que adotam testa a sanidade do ascensorista. 

Convivem no edifício uma mulher com câncer, um escritor desempregado, um jovem violento e sua namorada, uma artista sem prestígio com tendências suicidas, um síndico e uma velha solitária. Todos compartilham certa animalidade e uma falta de talento moral para a empatia, ou a ausência de superego, como explica o diretor Eric Lenate. “Eles são frenéticos e instauram um clima de agressão, violência e desconsideração com o outro. Chega-se num ponto em que a situação é considerada a mais natural possível, como acontece todos os dias, também da forma mais naturalizada por todos nós.” 

Tal qual Dario, o elevador exerce grande protagonismo na montagem. É pelo hall do edifício que a plateia é conduzida até o interior do transporte vertical. “Criei uma instalação para preparar o público mais sensorialmente, antes que a peça comece, embora já esteja acontecendo”, conta o diretor.

Se, no texto, a dramaturga previu dois espaços, um visual e outro sonoro, cujas vozes e presenças das personagens eram percebidas parcialmente, na montagem esses ambientes ganharam o mesmo nível de ação. “Eu estava lidando com muitos personagens, o que, às vezes, dificulta até mesmo a concretização de uma peça”, lembra Angela, que criou o texto durante os estudos no Núcleo de Dramaturgia do Sesi.

Ela acrescenta que, aos poucos, passou a associar cada morador com a trajetória de Dante no inferno da Divina Comédia. “Seus arquétipos cabem nos círculos descritos na história que abrigavam os pecadores, de acordo com o mal que praticaram em vida. O Lenate expôs esses planos e criou outras camadas na peça.”

E elas vão estar lá, visualmente na sensação criada de deslocamento vertical, que a plateia acompanha, graças ao sistema de luz de Aline Santini e às projeções de Laerte Késsimos, na trilha sonora da L. P. Daniel e na arquitetura cênica do diretor, que estende a perspectiva do palco e multiplica o mezanino nos diversos andares e corredores do prédio.

Para quem quer encontrar alguma esperança, Angela explica que inseriu o passarinho na narrativa para dar um certo respiro diante da atmosfera vertiginosa. “O ascensorista cuida dele, mas, em certo momento, os moradores começam a se incomodar com o animal ali dentro do elevador.” Se não fosse o bastante ser alvo dos humanos, a ave ainda poderá sofrer com o gato do síndico que fugiu do apartamento naquele dia e pode abocanhar presas como essa a qualquer momento.

REFLUXO

Centro Cultural Fiesp. Av. Paulista, 1.313. Tel.: 3146-7406. 4ª a sáb., 20h30; dom., 19h30. Grátis. Estreia quarta (12). Até 2/7. 

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