ELISA MENDES
ELISA MENDES

'Ele Ainda Está Aqui' une irmãos de diferentes continentes após a morte do pai que não conheceram

Espetáculo é falado nos dialetos português de Portugal, português de Angola e na língua portuguesa

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2019 | 03h00

Para ilustrar a onda de divórcios entre os norte-americanos, nos anos 1970 e 1980, contava-se a seguinte anedota – em um tradicional almoço de domingo com toda família reunida, a mulher grita direto da cozinha para o marido: ‘Amor, os meus filhos se juntaram aos seus filhos e estão batendo nos nossos filhos”. 

Esse é o espírito de Ele Ainda Está Aqui, que estreou nesta sexta, 4, no Teatro Renaissance. Na montagem com texto e direção de Silvio Guindane, três irmãos se encontram pela primeira vez em decorrência da morte do pai. O adeus ao homem rico e excêntrico é o ponto de partida para uma reunião tão trágica quanto cômica. “Nenhum deles conheceu o pai”, diz o diretor. “E também não se conheciam.”

Para ampliar as diferenças, José, Miguel e Francisco nasceram em lugares bem distantes. O primeiro, interpretado por Emilio Dantas, é um carioca, que trabalha na indústria têxtil, eufemismo para lojinha de roupa no comércio popular do Rio. A personagem de Thelmo Fernandes é um português formado na Universidade de Coimbra, casado e pai de quatro filhos. Por último, o ator angolano Omar Menezes interpreta Francisco, um jovem autista, também nascido em Angola. 

Esse intercâmbio de dialetos foi o que delineou o projeto do espetáculo, explica Menezes. “Silvio buscou criar uma história que unisse pessoas falantes de língua portuguesa de modo a explorar a riqueza do idioma e suas diferenças.” E o que há de tão diferente? Após um ensaio para o Estado, o angolano aponta para o sapato. “Em Angola, não existe a palavra cadarço. E, em Portugal, chama-se atacador”, explica.

O que o público vai acompanha nessa história começa no dia seguinte ao enterro do patriarca. O trio vai se encontrar na casa de José com um objetivo nada simples: discutir como será feita a partilha dos bens do falecido, que inclui diversos apartamentos espalhados pela capital carioca, além do controle de uma empresa. 

Diante de perfis tão diversos, já é possível imaginar o que se pretende no palco. José vai tentar convencer Miguel que é preciso “pular a burocracia” e vender logo todos os imóveis. “Ele é supergente boa para receber os irmãos, como todo brasileiro”, conta Dantas. “Mas seu jeito apressado de decidir levanta suspeitas.” O último a chegar ao encontro é Francisco. Com seu jeito “avesso”, logo se torna alvo dos comentários de seus irmãos. “Esse personagem surge como um ponto de equilíbrio entre José e Miguel, que só discutem.

O temperamento dele mais introvertido e voltado ao lado artístico é um ponto de vista sobre o problema de todos ali”, conta Menezes. Enquanto o carioca e o português discutem aos berros, o jovem prefere expressar o que sente desenhando no canto da sala. Para tanto, foram encomendadas para o espetáculo ilustrações exclusivas do cartunista e chargista Paulo Caruso (leia abaixo). “Em geral, muitos autistas têm uma grande aptidão para formas de artes. Durante os ensaios, experimentamos música e outras expressões, até que chegamos a esse jovem que gosta de desenhar.”

Segundo Guindane, o jogo cênico criado para esses estranhos de mesmo sangue caminha entre o humor, com momentos dramáticos. “As piadas, por exemplo, não são explicadas, elas surgem no comportamento e na reação deles ao que o outro fala. O que une esses irmãos também une muita gente por aí. A ausência paterna, tão presente no Brasil e que se expressa de formas diferentes, desde o abandono completo até a falta de afeto, mesmo quando pai e filho moram na mesma casa.” 

E esse lado mais emocional fica na conta do personagem Miguel, que demonstra seu sofrimento pela ausência do velho. Em uma cena, ele recorda como ficava feliz quando recebia cartas de seu pai. Tudo isso muda quando descobre que sua mãe e seu pai tinham a mesma letra. Como se não bastasse, a comemoração do Dia dos Pais na escola aumenta a dor do menino. Ele precisa escrever uma carta para o pai e voltar com a resposta. No dia seguinte, lá está ele, com a resposta criada de próprio punho. 

Com uma ambição que ultrapassa fronteiras, o espetáculo não ficará em temporada só por São Paulo. Após a estreia paulistana, Ele Ainda Está Aqui seguirá em turnê por Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Portugal, regiões com público falante de língua portuguesa. Que o espetáculo tenha muita sorte, ou como se diz em Angola, muita fezada!

Paulo Caruso assina ilustrações do espetáculo

Enquanto os irmãos José e Miguel discutem aos berros no palco de Ele Ainda Está Aqui, o terceiro filho de um velho rico recém-falecido se recolhe na sala e risca seus papéis. Seu nome é Francisco, um jovem autista nascido em Angola. Durante os ensaios, o autor e diretor Silvio Guindane buscou explorar as capacidades artísticas que o personagem poderia ter, tão afloradas em indivíduos com diferentes graus de autismo. 

O resultado, criado pelo ator Omar Menezes, também angolano, é o perfil de um jovem com vocação para o desenho. No espetáculo de quase uma hora, Francisco se empenha em expressar o que sente além das palavras. No fim de cada cena, Francisco pendura uma folha de papel recém-desenhada. 

O que o público verá são ilustrações do cartunista Paulo Caruso, conhecido por suas charges no programa da TV Cultura Roda Viva. Em todos os desenhos da peça, há o retrato bem-humorado desses estranhos de mesmo sangue que amam se odiar.

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