Sol Faganello|Divulgação
Sol Faganello|Divulgação

‘Efeito Cassandra’ coloca a atriz, sem ensaio, em espetáculo

Montagem do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos encara a violência direcionada à figura feminina através dos tempos

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2016 | 05h00

Até ontem, 27, a atriz Luaa Gabanini não sabia o que a esperava no palco do Sesc Ipiranga. Efeito Cassandra – Na Calada da Voz pretende lançar a atriz no palco “sem rede de proteção”, conta Claudia Schapira, diretora da montagem e integrante do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

O novo espetáculo da companhia encara a violência direcionada à figura feminina através dos tempos. A personagem norteadora é a vidente Cassandra, que recebeu o dom da profecia pelas mãos de Apolo. Quando a mulher se nega a se deitar com o deus do sol, este a amaldiçoa para que ninguém mais acredite em suas profecias. A falta de credibilidade da mulher custou a destruição de Troia, já predita por Cassandra. Mais tarde, ela é tomada como despojo e estuprada pelo soldado Ájax, dentro do templo de Atena.

A diretora conta que a ideia não é recontar o mito de Cassandra, mas como a história reverbera na sociedade. “Há uma cultura de deslegitimação do discurso feminino, é um retrocesso moral que desmonta a credibilidade da mulher. Isso está acontecendo na política brasileira, atualmente. E no lugar disso, dá-se espaço para a ‘bela, recatada e do lar’”, defende.

No diagnóstico da situação, Schapira intui que a opressão às mulheres chegou no limite. “Nós colocamos a boca no trombone”, conta. “Antes, a mulher tinha medo e as coisas precisam mudar. Isso não pode mais acontecer.” Para a atriz, a recente notícia da garota estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro causou grande furor. “Nós falamos de Cassandra, mas essa tragédia nos persegue até hoje. Eu fui atravessada por essa notícia. São circunstâncias dadas e precisamos nos recolocar contra elas”, diz.

O solo de Luaa também leva a coragem para a estrutura do espetáculo. A montagem foi concebida fora do palco em que a peça estreou e a atriz só conheceu o espaço ontem, no instante em que adentrou a sala. Claudia explica que a intenção foi criar uma “performance-espetáculo”. Para isso, atriz e diretora organizaram o que chamam “células temáticas”, compostas por músicas, imagens, textos e outros elementos que se relacionam com a totalidade da peça. Em uma dessas células está o estudo dos movimentos de cavalos, dado o significado mítico do animal. “No imaginário, eles são considerados seres dotados de clarividência. Em algumas religiões, usa-se o termo ‘cavalo’ em referência ao médium que incorpora espíritos,” diz Claudia.

Sem saber o que vai encontrar, a atriz se depara com um palco inesperado. A previsão de um espetáculo, em alusão ao poder místico de Cassandra. “Existe um roteiro com ações e textos, mas estou concentrada no que o presente pode me trazer. Não se trata de um improviso, mas de estar atenta diante de uma indicação, como a notícia do estupro, e responder a isso. O que vem é o agora”, conta Luaa. Para a diretora, a proposta “faz parte da busca por um estado em que temos o aparato do teatro e a subversão da performance.” Essa procura também passou por exercícios que provocassem um esgotamento extremo à atriz, explica Claudia. “Queremos que ela seja uma mulher quase histérica, como se estivesse em permanente estado de tortura.”

EFEITO CASSANDRA: NA CALADA DA VOZ. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, 3340-2000. 6ª, 21h30; sáb., 19h30; dom., 18h30. R$ 6/ R$ 20. Até 19/6. 

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