Édouard Lock
Édouard Lock

Édouard Lock chega ao Brasil em mais uma criação para a São Paulo Cia de Dança

A nova obra, que ainda não tem título, uma co-produção com o Movimentos Festwochen der Autostad, fará uma temporada de pré-estreia no Brasil, de 6 a 9 de junho, no Teatro Sérgio Cardoso

Fernanda Perniciotti , Especial para O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2019 | 03h00

Marroquino naturalizado canadense, o coreógrafo Édouard Lock assina uma segunda criação para a São Paulo Cia de Dança (SPCD), a cia oficial do estado de São Paulo. A nova obra, que ainda não tem título, uma co-produção com o Movimentos Festwochen der Autostad, fará uma temporada de pré-estreia no Brasil, de 6 a 9 de junho, no Teatro Sérgio Cardoso, uma vez que a estreia foi agendada para acontecer em Wolfsburg (Alemanha). Foi em 2014 que Lock criou sua primeira obra para a SPCD, The Seasons.

Lock foi diretor artístico da turnê mundial de David Bowie, Sound and Vision, em 1990, e sua ascensão na dança ocorreu nos anos 1980, como fundador, diretor e coreógrafo da Cia La La La Human Steps (1980 - 2015). 

Em entrevista exclusiva ao Estado, o coreógrafo contou sobre os interesses artísticos nas questões sociais que moviam a Cia, na ocasião: “Éramos uma cia artística em diálogo com o que estava acontecendo, como uma conversa social. Nós estávamos falando sobre coisas que eram relevantes para pessoas dentro e fora da dança. E foi nessa época que Bowie nos contatou. Era meio que um tempo louco”.

Antenada às questões que emergiam no fim do século 20, um dos marcos da trajetória da La La La foi a coreografia Human Sex (1985), muito centrada na imagem da bailarina Louise LeCavalier, parceira que marcou fortemente a carreira do coreógrafo: “Sim, Human Sex foi um marco. E Louise era muito importante, porque, à época, anos 1980, o ambiente era muito ativo, meio instável, em transformação, e uma das principais discussões era a igualdade de gênero. Louise aparecia no trabalho sem gênero específico, era forte como os parceiros masculinos com quem ela dividia o palco. E essa percepção de uma postura física forte, em uma bailarina, era algo novo. Por conta do que Louise foi capaz de fazer em cena, com a sua intensidade e precisão, ela fez a dança saltar. Produziu uma estética precisa para dialogar com aquele público. Ela se transformou em uma representante feminista”, afirmou.

Para Lock, são as múltiplas impossibilidades de percepção do corpo que formam a materialidade da criação em dança: “O corpo é misterioso; está cheio de detalhes que nós não entendemos. Acho que vemos o corpo simbolicamente, não o vemos como realidade. Quando eu estou concebendo uma dança, tenho em mente que não entendo completamente a estrutura do corpo e acho que, de alguma forma, a importância da dança é levar isso em consideração, porque, quando éramos crianças, a primeira coisa que fazíamos era explorar “o estranho” do nosso corpo”.

A condição de imigrante no Canadá foi central em sua trajetória. Para ele, é uma metáfora da própria posição do artista na sociedade: “Há muitas memórias em uma família, especialmente quando se é imigrante, quando se vem de outro lugar. Tem o jeito como o imigrante age, como se move, como fala. Eu observei a minha situação social, o meu caminho, tal como uma criança que se sente desconfortável, porque algo está fora de lugar. As histórias que meus pais me contavam, as crenças antiquadas para o ambiente, a maneira estranha como eles explicavam tudo – o que restava era apenas a impressão de outro mundo que não estava mais lá, como uma tribo extinta. É assim com um artista também, que, em alguns momentos, olha para o mundo como se estivesse retirado dele. Como se pudesse enxergá-lo de fora, entra em um lugar que realmente não pertence a ele. Eu olhei para as coisas a partir de um mundo externo a elas, e, com isso, pude criar”.

Lock, que já coreografou para diversas Cias mundo afora, como Ópera de Paris e Nederlands Dans Theater, enfatiza a diferença entre ser um coreógrafo convidado e residente: “É muito diferente quando você trabalha com a sua cia. Você pode gastar mais tempo no que quer explorar e está constantemente trabalhando com as mesmas pessoas. Quando você vem como um artista convidado, fica por um determinado período de tempo, e, depois disso, você sai. Portanto, não há um contato prolongado. Na minha cia, convivi com alguns artistas por 10, 15 e até 18 anos”. 

Comenta também sobre a relação com o local: “Acho que quando sou convidado por uma companhia, vou para a companhia e não para o país dela. Quando vou e trabalho no Brasil, por exemplo, meu contato é através da cia, e não com a situação direta do país. Obviamente, as cias são resultados de uma cultura, um ambiente, um idioma e das condições daquele lugar, mas, para mim, o contato é específico”.

Sobre a nova coreografia, Lock afirma que só pode dizer: “Venha e veja!”. Aos que tiveram a oportunidade de assistir e refletir sobre as suas criações nas décadas da La La La, a experiência de encontrar com as transformações em seu modo de coreografar, tanto em suas escolhas estéticas quanto políticas, é, antes de mais nada, um convite a pensar sobre as mudanças nos contextos históricos e a nossa condição de homens do nosso tempo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.