RICARDO LEAL
RICARDO LEAL

‘É preciso criar bons personagens negros’, diz Whoopi Goldberg

Ela defende, literalmente, uma mudança de hábitos em Hollywood e diz que só o diálogo pode resolver a questão racial no mundo

Entrevista com

Whoopi Goldberg

Daniel Japiassu / NOVA YORK , O Estado de S. Paulo

01 Março 2015 | 03h00

Em entrevista ao Estado, a atriz Whoopi Goldberg fala sobre o musical Mudança de Hábito, coproduzido por ela e que estreia na próxima sexta-feira, 6, em São Paulo. 

Está mais fácil encontrar roteiros com bons personagens negros hoje em dia? 

Continua dificílimo. Veja os filmes nos cinemas. Quando aparece um negro, os personagens mudam de calçada (risos). Nem os bons filmes negros recebem a devida atenção.

Como mudar isso?

Mais gente tem de começar a escrever roteiros com negros, criar bons personagens negros. A coisa mais difícil do mundo é ver um negro rico patrocinar produções, colocar dinheiro em cinema ou teatro. Veja alguns dos maiores sucessos da TV americana, como Friends e Seinfeld. Não se vê um único negro. E eles moram em Nova York! Será que ninguém se toca do absurdo? De que está faltando alguma coisa? 

Como viu os últimos episódios raciais nos EUA, com policiais brancos matando negros?

Isso acontece em qualquer lugar, porque imbecis existem em toda a parte. Não podemos dizer que todo policial branco é mau nem que todo cara negro é bom. Mas ninguém merece levar um tiro, como um cão, na rua. Mesmo a pior pessoa do mundo. Dê-lhe um tiro no joelho, bote na cadeia. Mais do que um confronto racial, o que temos é um confronto entre pessoas despreparadas, policiais mal treinados. O que precisamos? Muita conversa, muito diálogo. Porque ninguém mais quer ver isso acontecer. As pessoas estão cansadas.

Está satisfeita com o presidente Barack Obama?

Estou, sim. Veja, agora os gays podem se casar, em qualquer Estado. As pessoas passaram a ter um sistema de saúde. Isso é muita coisa. O problema é que ninguém parece se lembrar do desastre econômico em que estava o país quando ele assumiu a Casa Branca. Estávamos no buraco. Obama é perfeito? Claro que não! Mas é muito melhor do que muitos que vieram antes dele. E tenta nos manter fora de guerras, o que eu, particularmente, adoro. Sei que ele deixou muita gente irritada… gente que só agora parece ter percebido que o presidente é, sim, americano! (risos) Sério? Depois de quase oito anos? 

Considera uma visão racista?

Não diria isso. Muitas vezes é preciso tentar entender o que as pessoas estão falando, para poder distinguir entre uma atitude racista e uma sonora estupidez. Porque são coisas bastante diferentes. Quando você dá de cara com um racista de verdade… você sabe. Ele deixa sua posição muito clara.

Está mais difícil fazer comédia hoje em dia, por causa do politicamente correto?

Não sei nada sobre o politicamente correto. Para mim, continua sendo muito fácil fazer humor. (risos) Não perco meu tempo pensando nisso.

Em Ghost, que lhe rendeu um Oscar, você faz o papel de uma médium vigarista. Como foi interpretar esse papel sendo espírita?

Olha, tudo ali foi muito bom. Se você se mantiver aberto, vai sonhar com pessoas que quer rever, assim como também com quem não quer falar. Mas essas pessoas estão sempre lá. Às vezes, você sonha com sua avó falecida, que passa para lhe dar um alô, vem lhe visitar. Se você estiver aberto e se lembrar dos seus entes queridos, seus sonhos podem ser maravilhosos. Todo mundo tem uma ponta de espiritualidade.

Você é uma das poucas pessoas que podem se orgulhar de ter ganho todos os principais prêmios de teatro, TV, música e cinema. Como isso foi possível?

Não sei como isso aconteceu! (risos) Foi ótimo ter recebido todos esses prêmios – para a minha carreira, claro –, mas não mudaram nada em mim.

Como é sua vida familiar?

Minha filha, o marido dela e os filhos moram na Califórnia e eu, em Nova York. É ótimo quando eles vêm me visitar, e ótimo quando vão embora (risos). Tenho também um bisneto, de 11 meses, que adoro. 

O que faz no tempo livre, além de produzir musicais com personagens principais negros?

(risos) Tenho tido problemas de visão, por isso, uma das coisas de que mais gosto de fazer atualmente é ouvir livros. Sei que parece meio estranho, mas realmente é algo que me dá prazer e me relaxa muito. De Charles Dickens a Isabel Allende. E filmes antigos… tenho ouvido muitos deles também. 

O REPÓRTER VIAJOU PARA NOVA YORK A CONVITE DA T4F

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