Dupla brasileira OsGêmeos entrevista o clown russo Slava Polunin para o 'Estado'

Espetáculo 'Slava's SnowShow' fica em cartaz em SP até domingo

O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2016 | 04h00

Respeitado clown contemporâneo, o russo Slava Polunin, de 65 anos, recria no Slava’s SnowShow seu emblemático universo onírico, em que o clown assume o papel de protagonista do teatro. O espetáculo, que está em cartaz no Teatro Bradesco (Bourbon Shopping. R. Palestra Itália, 500, 3º andar, tel. 3670.4100; R$100/R$ 170), em São Paulo, até domingo, 8, une o aparato cênico e a “meditação cômica sobre a vida, a morte e a beleza do universo”. Admiradores dele e do tom lúdico de seu trabalho, os artistas brasileiros e irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, que formam a dupla OsGêmeos, fizeram entrevista com Slava Polunin para o Estado. 

Sua história começa nos porões da antiga União Soviética, escondido, em meio a um regime rígido e marcante e, após uma longa caminhada acreditando sempre nos sonhos, conquista o mundo. Conte mais  aos leitores sobre sua história.

A arte do clown, naquela época, não era oficial, então fazíamos tudo às escondidas. Mas ao mesmo tempo, as condições culturais que tínhamos eram excelentes, havia ótimos professores, por exemplo. No fundo, as circunstâncias ao redor eram tudo aquilo que precisávamos para fazer arte.

Quando e por que você decidiu compartilhar o seu universo lúdico e mágico com as pessoas?

Há décadas, quando ainda um jovem na Rússia, me apaixonei pela arte da mímica de Marcel Marceau e Charlie Chaplin e passei a  dedicar minha vida ao clown,  que considero um médico, um xamã moderno, um curador de almas. E com uma velocidade vertiginosa, tudo aconteceu, percorremos o mundo todo há vinte anos com o espetáculo, além de meus outros projetos.  A arte do clown não pode se fazer sozinho, não é como a de um escritor, que está só com seu livro. Só quando você está no palco e há um público a quem você quer levar das lágrimas ao riso é que a magia acontece. 

Assim como você, nós também vivemos em nosso universo paralelo, lúdico e mágico, onde encontramos as melhores "ferramentas" para expressarmos os sonhos que temos com todos e compartilhamos isso com as pessoas. Claro que isso toma muita energia, mas por outro lado somos muito gratos com o resultado e resposta de todo esse trabalho. Para você, o que é mais gratificante em termos de retorno e resposta a partir do trabalho que você faz? O que te motiva a continuar dividindo sonhos, poesia, momentos mágicos com as pessoas?

Eis que a natureza fez-me de tal jeito:  fico feliz quando tudo ao meu redor está inebriado por um certo encantamento. Então, antes de mais nada,  espalho felicidade ao redor, faça as pessoas felizes. E isto me inebria também.  

Você vive em um antigo moinho na França, "Moulin Jaune" (Moinho Amarelo) um espaço surrealista aberto ao público que propõe que a vida cotidiana tenha mais poesia - e que subverte os padrões dos parque de diversões habituais.  É um projeto que você quer dar continuidade? Tem em vista novos projetos para o Moulin?

O "Moulin Jaune" é um dos projetos mais importantes da minha vida, não vivo só no lá. Vivo em todos os lugares. Onde começa um novo projeto é minha residência do momento. Agora pouco vivi por três anos em St. Petersburg, como  diretor artístico da (Bolshoi) Saint-Petersburg State Circus, o mais antigo circo da Rússia, porque estava ajudando a restaurar e  revitalizar as artes circenses que estão está em uma posição muito difícil no mundo moderno. 

Nos próximos três anos  ainda não sei onde estarei, mas um dos meus lugares favoritos certamente é o moinho,  porque é meu laboratório criativo, onde faço um monte de projetos. Acabamos de fazer um projeto que foi um sucesso notável, dei o nome de "Como abrir a capacidade do homem de sonhar e voar." Agora estamos preparando uma festa com o nome provisório de "Picnic", porque tem como mote a religação do homem com a natureza através dos prazeres simples da vida, da imaginação e brincadeiras. 

Quem costuma sair mais encantado do teatro, crianças ou adultos?

O alvo principal é sempre os adultos. Porque as crianças são naturalmente felizes, ainda não entraram em contato com os problemas da vida, para elas o mundo inteiro é aberto e sem fim - salvo situações sociais complexas. Mas os adultos acabam se congelando, endurecendo. Assim que um pouco mais velhos, começam a se envolver com as complexidades da vida e a perder um certo encantamento com a existência.  No entanto, se você guardar a criança dentro de si e sua capacidade de se encantar com os sentimentos tão profundos quanto simples e as belezas do existir, certamente tudo muito mais fácil e mais divertido. Adultos que entram sisudos saem absolutamente transformados do espetáculo, algo de muito importante em suas almas acontece naqueles 120 minutos.  

O que você vê como maior "legado" da sua arte?

Vendo todas as noites durante espetáculo, mil rostos felizes - este é o melhor "legado" que posso querer.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.