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Dramaturgo Motti Lerner fala sobre amor e fé em São Paulo

Em visita ao Brasil, o também roteirista israelense participa de debate após apresentação da peça ‘Amor Profano’

Marilia Neustein , O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2019 | 03h00

Motti Lerner é um ateu “ameaçado e desafiado pela ideia de Deus”. Ou, pelo menos, é assim que o dramaturgo israelense se define. Autor da peça Amor Profano – em cartaz no Teatro Raul Cortez e estrelada por Vivianne Pasmanter e Marcello Airoldi – Lerner desembarcou no Brasil, esta semana para uma agenda intensa de compromissos. Sábado, 2, e domingo, 3, participa de debate após o espetáculo, na terça, 5, ministra workshop na Casa das Rosas e na quarta, 6, reúne-se com alunos da escola de teatro Célia Helena. 

A questão da religiosidade, fundamental na peça escolhida por Pasmanter, está presente em toda obra de Lerner “Esses temas me perseguiram por muito tempo, provavelmente desde o fim dos anos 1970, quando eu vivia em Jerusalém, trabalhando como diretor assistente numa produção para teatro que tratava de temas religiosos e a pesquisa me levou à comunidade ultraortodoxa de Mea shearim – o bairro onde se passa o 1.º ato”, revelou em entrevista exclusiva ao Estado

No espetáculo, Vivianne e Airoldi interpretam um casal que vive um inusitado triângulo amoroso com Deus. Os personagens Hannah e Zvi cresceram em uma comunidade ultraortodoxa em Jerusalém, mas se divorciam quando Zvi, em uma crise de fé, opta por seguir uma vida secular em Tel-Aviv. O reencontro deles, anos mais tarde, é descrito pelo autor como um confronto de amor, , entre outros temas. Indagado sobre os conflitos amorosos atuais, Lerner foge de generalizações, mas arrisca palpites. “Tenho a impressão de que o contexto cultural que se transformou dramaticamente nos últimos 500 anos, afetou os relacionamentos principalmente nos níveis externos de comportamento.” 

Não é apenas em Amor Profano que a comunidade ultraortodoxa judaica, conhecida como ‘haredim’, está retratada na ficção disponível no Brasil. Recentemente, a série Shtisel, que aborda o mesmo universo, estreou na Netflix. Documentários sobre o tema também estão disponíveis nas plataformas de streaming.

Para Lerner, é natural que exista curiosidade e fascínio sobre o mundo ultraortodoxo, porém lamenta que poucos se interessem profundamente sobre o tema, explorando a complexidade da fé e seu conflito com a secularidade: “Sou muito tolerante com as diferenças entre o mundo religioso e o secular. Acho que a fé pode ser uma escolha muito pessoal e eu posso entender a necessidade de viver em comunidades que compartilham dos mesmos valores religiosos. Mas sou muito intolerante sobre a utilização da religião e dos valores religiosos na política”, diz. 

A escolha de a peça se passar em Jerusalém, cidade centro de polêmicas, também foi intencional: “Jerusalém é uma cidade muito difícil. Aceito o fato de que é um lugar sagrado para três religiões, mas não posso aceitar o fato de que essa luta pelo sagrado vem criando tanto ódio e violência. Eu posso entender a ideia do sagrado que é inspirada pela presença de Deus e posso respeitar isso até como ateu, mas acho muito difícil ver santidade em pedras, prédios e montanhas. Isso me parece quase uma idolatria”. 

Sobre o boicote cultural realizado contra autores israelenses, Lerner afirmou que a ação “não serve aos seus propósitos”. “Compreendo as críticas às políticas e às ações militares de Israel nos últimos 70 anos. Eu mesmo as critiquei durante toda a minha vida. Mas, na prática, o boicote a artistas e autores enfraquece a luta para mudar a situação política de Israel e diminui as chances de levar ao fim da ocupação do povo palestino, que  acredito ser o objetivo desse boicote.”

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