CLAUDICA RIBEIRO
CLAUDICA RIBEIRO

Drama do norte-americano Tracy Letts, 'Agosto' indica que amor e ódio vêm de berço

Peça que teve no cinema estrelas como Meryl Streep e Julia Roberts faz temporada no Sesc Consolação

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2018 | 06h00

Quando a atriz Guida Vianna assistiu a Álbum de Família, tradução brasileira do filme August: Osage County, o título não ajudou muito. “Nós, brasileiros, já lembramos do nome da peça de Nelson Rodrigues”, diz ela. Apesar de um elenco estelar – Meryl Streep e Julia Roberts contracenando –, a adaptação da peça do norte-americano Tracy Letts também não a convenceu muito. “A trama é muito claustrofóbica, dentro de uma casa onde toda família se reúne. O filme não deu essa sensação.”

O que a fez mudar de ideia e aceitar fazer o papel da matriarca Violet pode ser visto em Agosto, que estreia nesta quinta-feira, 12, no Sesc Consolação. Na trama, está uma família problemática de berço. Guida vive uma mulher que sofre de câncer de boca e é viciada em remédios. Seu marido, alcoólatra, desapareceu deixando uma carta de suicídio. O acontecimento reúne os demais integrantes da família – ao todo são 11 atores no palco. Uma das filhas, interpretada por Letícia Isnard, é alvo da matriarca. Ela está em processo de divórcio com o marido e mantém um relacionamento distante com sua filha. “Violet não poupa impropérios a ninguém”, afirma Guida. “Ela é uma mulher politicamente incorreta, acostumada a dizer barbaridades para as três filhas, e essa reunião de família se torna um encontro para lavar a roupa suja.”

Para a atriz, o trabalho de interpretar Violet foi o de buscar um caminho, árido, para achar sua humanidade. “Ela está no limite do sofrimento, a saúde debilitada e o modo de se encontrar viva foi de manifestar seu amor e ódio intensamente”, explica. 

Letts vem de uma tradição do teatro norte-americano realista, que olha para os laços familiares e seus integrantes como caricaturas macabras de uma família feliz. O autor figura ao lado de Edward Albee, Tennessee Williams, Arthur Miller e Eugene O’Neill, escritores que deixaram certa influência na dramaturgia de Nelson Rodrigues. Em geral, são indivíduos que espalham pelos cômodos da casa suas crises e mágoas com intensidade de quem não viveu a esperança do famigerado sonho americano. “Às vezes, perdemos contato com essa tradição da dramaturgia dos EUA para histórias mais ligeiras e sem tantos detalhes. Essa peça retoma um drama com todas suas características”, explica o diretor André Paes Leme.

Em Agosto, o elenco é numeroso e foi um trabalho e tanto para o diretor, que precisou desenvolver certos procedimentos para construir a montagem. “Criei planilhas para os ensaios, que foram muitos e em diversos recortes. Mesmo assim, o desafio foi integrar a mesmo ritmo e energia durante toda a história. A peça se torna então um projeto raro nos tempos de hoje.” 

O cenário original proposto pelo autor acompanha a grandiosidade do elenco. A solicitação ideal demais para os palcos brasileiros seria a estrutura de uma casa, incluindo sótão, visto em corte transversal. A peça, que estreou no Rio, precisou sofrer adaptações. O resultado deu dinamismo às cenas, explica o diretor. “Todos os personagens estão no mesmo plano e essa casa se divide por cômodos, observados pela plateia. Se na peça original as cenas se davam em sequência, passei a intercalar alguns momentos. Aqui, uma cena para dois atores virou uma cena para quatro”, conta.

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