Ronaldo Dimer
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Dostoievski faz viagem temporal em ‘45 Graus’

Malì Teatro se inspira em ‘A Dócil’ para cruzar histórias entre a São Petersburgo de 1876 e a selvagem São Paulo atual

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2019 | 05h00

Foi de uma curta notícia no jornal que nasceu A Dócil, novela de Dostoievski sobre o caso de uma jovem que se lança da janela com uma imagem religiosa acolhida em seus braços. A cena complexa perturba a mente do ator Marcos de Andrade, que estreia na direção de 45 Graus, que estreou terça-feira, 29, no Sesc Avenida Paulista. “Posso dizer que o Crime e Castigo me livrou da depressão, quando terminei a faculdade.”

Junto com o Malì Teatro, grupo criado com elenco oriundo do Centro de Pesquisa Teatro (CPT), de Antunes Filho, Andrade encena o drama de uma jovem que perde o pai e experimenta o abandono e exploração social na São Petersburgo de 1876.

Sem o interesse de reportar-se ao passado apenas, a peça permite-se flertar com outros tempos e apontando referência ao Brasil de 1930. “Há um casarão dessa época que abriga todos os personagens, mesmo que existam em tempos diferentes.” Configurado como um portal no tempo, talvez, há um terceiro registro no tempo, em um futuro solitário, marcado pela presença de um jovem que tenta se conectar com outras pessoas. “A partir de um acontecimento trágico, a peça deseja falar sobre opressão, sobre a instabilidade que desarranja a vida”, afirma o diretor.

Menos que o ato suicida da garota, a novela do autor russo faz da realidade a grande antagonista. Aliás, o título da peça surge de um trecho que sugere a angulação ideal do corpo para evitar esse desejo trágico pela morte. Com um estilo que Dostoievski disse ter emprestado de Victor Hugo, há um narrador bastante suspeito, criado para que o leitor desconfie dele. A saga de sobrevivência da menina inclui que ela penhore o que lhe resta de mais valioso. O dono da loja de penhores cria afeição por ela e, na ânsia por lhe oferecer suporte, acaba replicando ainda mais sofrimento.

Um ex-militar também guarda consigo segredos que poderão desestabilizar a história. “São como fantasmas de diferentes épocas”, diz Andrade. “Resíduos de pessoas que viveram ali e que continuam afetando a existência.”

Durante o ensaio, acompanhado pela reportagem, o fluxo de consciência impresso no texto ganha o palco com cenas de muito silêncio. Trabalho desenvolvido ao longo de dois anos, o diretor reafirma a marca de Antunes Filho em sua estreia. “Não é clichê dizer que ele foi um grande mestre para muitos artistas”, sobre o diretor morto em maio deste ano. “Ainda vivemos como se ele estivesse fora por alguns dias, como se fosse aparecer agora.”

Protagonista de Blanche, penúltima peça de Antunes, Andrade afirma colher bons frutos de seus estudos no CPT. “A Malì Teatro surge com um diálogo aberto antes de pensarmos em sua criação. De alguma forma, estamos fazendo o que aprendemos com ele, e tentando olhar para o futuro.”

SERVIÇO

45 GRAUS

SESC AVENIDA PAULISTA

AVENIDA PAULISTA, 119.

TEL.: 3170-0800.

3ª e 4ª, 21H. R$ 15 / R$ 30. ATÉ 4/12.

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