Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Dor marca ‘Hysterica Passio’, da espanhola Angélica Liddell, que volta a São Paulo

Encenado por Alessandro Hernandez e Amália Pereira, o espetáculo conta a história de Hipólito que, aos 12 anos, resolve se vingar dos pais

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2017 | 06h00

A atriz e dramaturga espanhola Angélica Liddell se inspira a partir de emoções intensas e por temas que fogem à razão. São quatro os pilares que sustentam seu teatro, como morte, o amor, deus e o sexo. Para ela, a agressividade pode colocar os homens em contato com as emoções e, através da poesia, é possível se voltar à intimidade por meio dos instintos. Dois exemplos dessa evidente dramaturgia impactante poderão ser acompanhados pelo público de São Paulo.

Nesta segunda, 4, volta em cartaz a peça Hysterica Passio, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, e a própria Angélica vai apresentar Génesis VI: 6-7, nos dias 20 e 21 de setembro, no Sesc Pinheiros. “Liddell é uma contundente dramaturga, que aprofunda as questões acerca do ser humano e suas dores mais íntimas. É uma autora que faz sangrar as palavras e me possibilita uma investigação poética, estética e cênica, onde o foco é o ser humano e sua aventura de viver”, afirma Reginaldo Nascimento, diretor de Hysterica Passio.

Encenado por Alessandro Hernandez e Amália Pereira, em intensa interpretação, o espetáculo conta a história de Hipólito que, aos 12 anos, resolve se vingar dos pais (a esquálida enfermeira Thora e o pálido dentista Senderovich) pelos maus tratos por ele sofridos. Como se tornou comum em sua obra, Angélica Liddell não faz concessões no texto, expondo com crueza violências familiares habitualmente camufladas. “A encenação abusa da teatralidade e explicita a angústia destes seres numa interpretação que transita com a alegoria e brinca com os expedientes do circo de feras e de horrores para tentar dar cor a uma vida de dor”, comenta Nascimento.

Hysterica Passio – título inspirado em uma antiga expressão médica, que significa “paixão histérica” ou, mais exatamente, “paixão do útero” – terá 12 apresentações gratuitas e faz parte do projeto do Teatro Kaus, grupo liderado por Nascimento, intitulado Da América Latina à Espanha – Dez Anos De Dramaturgia Hispânica, que foi contemplado pelo Projeto Fomento da Secretaria Municipal de Cultura.

Génesis VI: 6-7 completa a Trilogía Del Infinito, composta ainda por Esta Breve Tragedia De La Carne e seguida por Qué Haré Yo Con Esta Espada?. O título remete a um trecho do Velho Testamento, que diz: “Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até o animal, até o réptil, e até a ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito”. Sobre sua concepção teatral, Angélica respondeu por e-mail as seguintes perguntas.

Você considera sua arte como um “teatro de resistência”?

Por um lado, isso me ajuda a resistir ao sem sentido da vida e, por outro, é uma resistência contra a feiura, a mesquinhez e a ruindade humanas.

Qual deveria ser a posição de um espectador diante de uma obra de arte – especialmente a sua?

Não acredito que se deva impor uma maneira de se desfrutar de uma obra. Qualquer espectador, diante de todo tipo de obra, está submetido a uma catarse antiga, a uma identificação, à liberação de seus conflitos internos, a suportar uma situação de angústia que o põe em contato com suas próprias emoções.

Por que você não acredita em nenhum tipo de família, nem de comunidade, tampouco do coletivo?

Porque não tenho sentimento de pertencimento. Sou profundamente individualista. Além disso, sou solitária e não sinto um grande apego pela ideia de humanidade. Acredito no profundo conflito do homem consigo mesmo. O resto é hipocrisia e escravidão.

Você acredita que é preciso responder a cada frustração com um ato criativo? O amor ajuda o trabalho?

A eloquência nasce da ferida. Isso é a criação. O trabalho é o amor. 

O lado transgressor de sua obra difere da arte da performance que marcou os anos 1960. Mesmo assim, você observa proximidade de seu trabalho com a performance art?

Não tenho nada a ver com as vanguardas dos anos 1960 nem com a performance. Penso ter sido uma época gloriosa, plena de vitalidade e de uma liberdade hoje perdidas. Minha obra, no entanto, se aproxima mais da tarefa de um pintor renascentista, pois me preocupa extremamente a composição.

O mundo atual vive sob uma intensa violência. Como você se posiciona diante disso, como artista?

A poesia é a grande rebelião contra a violência. Nosso terrorismo nasce da beleza.

HYSTERICA PASSIO

Oficina Cultural Oswald 

de Andrade.

Rua Três Rios, 363. Tel. 3221-4704. 2ª e 3ª, 20h. Grátis. 

Até 10/10

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