JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

‘Dogville’ põe no palco todo o suspense do filme de Lars Von Trier

Com elenco harmonioso e bom uso da função dramatúrgica da cenografia, Zé Henrique de Paula é bem-sucedido em adaptação

Maria Eugênia de Menezes  , Especial para o Estado

14 de março de 2019 | 03h00

Lançado em 2003, o filme Dogville, de Lars Von Trier, surpreendeu pelo seu despojamento. Signatário do Dogma 95, um manifesto cinematográfico pela simplicidade técnica, o cineasta dinamarquês criou uma obra que se passa inteiramente dentro de um galpão, com um cenário que se resume a marcações no chão e uma estética muito mais próxima dos palcos do que das telas. 

Na hora de adaptar o roteiro para o teatro, o diretor Zé Henrique de Paula empreende, de certa maneira, o caminho inverso. Para contar a história da forasteira Grace (Mel Lisboa), que se abriga de gângsteres em uma pacata cidadezinha, ele não se reduz ao que se passa em cena e coloca os atores para interagir com cenas filmadas e projetadas em um telão. Curioso notar que toda essa parte audiovisual, realizada sob a direção de Laerte Késsimos, vai justamente na contramão do apregoado por Lars Von Trier, ressaltando os efeitos de pós-produção e buscando criar uma atmosfera de suspense e apreensão. 

Além de convocar o cinema como parte essencial da encenação, também é possível observar como Zé Henrique de Paula substitui o aspecto improvisado que impera no longa-metragem por uma produção atenta a questões técnicas, entre elas a cenografia, o som e a iluminação. Serão esses os recursos utilizados para marcar a passagem de cenas e a movimentação dos atores. 

Seja à frente de seu grupo, o Núcleo Experimental, seja em projetos paralelos – como é o caso desse espetáculo, Zé Henrique se dedica à adaptação de clássicos e títulos de sucesso. Além do acabamento claramente superior ao que se observa em montagens comerciais (como se pôde comprovar no recente Panorama Visto da Ponte), chama atenção sua grande capacidade de se comunicar e conseguir a adesão da plateia. 

Com Dogville não é diferente, ainda que a trama – um tanto alongada – demore a explicitar seu conflito. Em um pequeno povoado nas montanhas dos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, uma mulher encontra abrigo para se esconder de bandidos que a perseguem. A princípio, a população se recusa a recebê-la. Mas, graças a Thomas, um escritor à procura de um exemplo para suas lições de moral, ela consegue permissão para ficar. Em troca da acolhida, começa a prestar favores aos moradores – que, gradativamente, se mostram mesquinhos e passam a explorá-la mais e mais. Por fim, é transformada em escrava sexual por toda a cidade. A trama ganha densidade a partir desse ponto e algumas atuações merecem mais cor. Mesmo em um elenco harmonioso e com papéis de peso equivalente, destacam-se Fábio Assunção, Chris Couto e Bianca Byington

Dividida em dez capítulos, a obra é apresentada ao público por um narrador onisciente. Eric Lenate interpreta-o com exagerada afetação, como se buscasse um tom irônico que não chega a se concretizar completamente. Ocasionalmente, outros atores também fazem apartes narrativos – comentando ações em vez de realizá-las – um expediente que ressalta a influência de Bertolt Brecht, traço tão marcante no filme. 

Também brechtiana é a concepção do espaço. Sendo arquiteto de formação, o encenador não negligencia a função dramatúrgica da cenografia. De posse de uma grande e neutra estrutura de metal e de algumas cadeiras, consegue materializar a frieza que atravessa o texto. Não existe ilusionismo. Toda a movimentação do vasto elenco é estudada, grupos de intérpretes se deslocam de maneira estilizada em cena, afirmando um justificado formalismo. 

Se a inspiração em Brecht é forte na forma, não é menos presente no conteúdo – que evoca alguns dos temas preferenciais do dramaturgo alemão. Em sua bondade, Grace lembra a personagem Chen Te de A Alma Boa de Setsuan. Outra referência teatral forte é a Visita da Velha Senhora. No clássico do suíço Friedrich Dürrenmatt, os cordatos moradores de uma cidadezinha também se mostram capazes das maiores atrocidades quando agem em interesse próprio. Com inteligência no desenho das cenas e mão firme para dosar os efeitos dramáticos, Dogville coloca diante da plateia um grande espelho para refletir seus demônios. Mira um episódio particular, mas consegue a proeza de captar o estado geral das coisas. 

DOGVILLE 

Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740, 3226-7300.  6ª e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 50 a R$ 90. Até 31/3

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