HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Diretor Mauricio Kartun narra o impacto do Teatro do Oprimido em sua produção

Argentino participa de oficina de dramaturgia com a Cia Ocamorana

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

24 de novembro de 2016 | 03h00

No fim de dezembro de 1970, a cidade de Buenos Aires iria se agitar ao abrigar a temporada de um espetáculo brasileiro. Muitos portenhos não sabiam o que esperar de Arena Conta Zumbi, montagem de Augusto Boal sobre o líder do Quilombo dos Palmares.

Hoje é possível calcular, ao menos, perceber, os frutos dessa internacionalização do teatro brasileiro, tão cara e rara. “Era uma peça dotada de vitalidade, cheio de energia, popular e política, com atores bonitos e atrizes lindas!”, conta o dramaturgo argentino Mauricio Kartun que após o encontro com a obra de Boal deixou a produção de contos para escrever textos teatrais. 

Ele está no Brasil até esta sexta, 25, para conceder uma oficina aberta de dramaturgia com a Cia Ocamorana, no Galpão do Folias. “Percebi que aquele espetáculo do Teatro do Oprimido continha muita qualidade em seus diálogos, nas canções compostas e no vigor do elenco”, conta. Kartun aproveitou a a estadia de Boal na cidade para ter aulas com o mestre.

Os ensinamentos indicaram um caminho estético que acompanhou suas primeiras criações até as mais recentes, como Terrenal, que acabou de retornar do Festival Tempora Alta, em Girona, na Espanha. Desde 2014, a peça já circulou pelo México, Peru, Costa Rica e País Basco.

A montagem é inspirada no curto episódio bíblico dos irmãos Caim e Abel. “Eu sempre tive a impressão de que a história de assassinato de um dos filhos de Adão e Eva tinha muito mais a dizer do que a simples citação na Bíblia.” O autor se apoiou no mito para estabelecer uma reflexão sobre opostos. “Um deles era nômade, o outro sedentário. Só isso já é uma pista para tratar de um embate mais profundo.”

Quem surge para desestabilizar esse universo são as linguagens populares, redescobertas no aprendizado com Boal. No palco, Kartun coloca tipos de palhaços (o terceiro personagem é deus). “O clown é o sujeito que não tem limites para roubar o riso, diante do sério e autoritário palhaço branco. O último é o que chamamos de Pierrot, apaixonado e idealista.” O dramaturgo ressalta que essa linguagem é apena pretexto para o que ele deseja como autor. “Me importa encontrar e explorar uma profundidade poética nesses seres, mais que o rigor de representá-los.”

Em certo período, sua produção se voltou para o teatro documental, como as cartas trocadas pelos anarquistas Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, acusados de homicídio e executados em 1920. O diretor da Cia Ocamorana Márcio Boaro acredita que o processo de fundir formas populares a um teatro histórico pode contribuir para a nova empreitada do grupo: a montagem de Coriolano. “Queremos repensar o Brasil diante da história de um general que toma uma cidade e se torna odiado pelo povo.”

Leitura dramática

No próximo dia 29, o diretor Marco Antonio Rodrigues realiza a leitura de Ala de Criados, texto de Kartun, às 19h, na Casa do Saber, rua Dr. Mario Ferraz, 414. O texto narra o quadro de greves e repressão na Semana Trágica de Buenos Aires (1919). 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.