GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Diretor Gabriel Villela faz a peça ‘Peer Gynt’ à brasileira

Diretor adapta a obra de Henrik Ibsen para jovens com canções dos Beatles e referências à malandragem, provocando a imaginação do espectador

Maria Eugênia de Menezes , Especial para O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2016 | 04h00

Existem artistas que se adaptam às obras que realizam. E há aqueles cujas assinaturas se impõem: Não importa qual o material a ser trabalhado, basta um olhar para reconhecê-los. É nessa categoria de criadores que podemos incluir Gabriel Villela. A lidar com Shakespeare, os gregos ou autores contemporâneos, é sempre possível vislumbrar dois sinais que o distinguem: a exuberância visual e o apuro com a trilha sonora. 

Em Peer Gynt, atualmente em cartaz no Teatro do Sesi, não é diferente. Ambos os traços de identidade do diretor se fazem presentes nessa adaptação. Para recriar o texto do norueguês Henrik Ibsen, publicado em 1867, Villela se vale, primeiramente, de uma paleta de cores marcantes, amarrando referências kitsch do Nordeste brasileiro a evocações do equilíbrio e da suavidade da indumentária japonesa. Em meio a essa invulgar combinação de tecidos de chita com quimonos de seda, a música funciona como um outro contraponto. Para contar as façanhas do anti-herói e seu espírito contestador, sai a afamada trilha de Edvard Grieg e entram canções dos Beatles, revestidas de novos arranjos. 

Com essa obra, Ibsen destoa um pouco do estilo que o notabilizou. Expoente do teatro realista do século 19, o nórdico escreveu peças que examinavam a nova sociedade burguesa e seus valores morais. Lançada 12 anos antes de Casa de Bonecas, Peer Gynt precede essa fase. Aqui, o autor se devota a compor uma aventura fantasiosa, a odisseia de um homem em busca da própria identidade, que anseia ser fiel, unicamente, a si mesmo. 

A aura de surrealismo que contamina a trama serve como “prato cheio” aos propósitos do diretor, sempre dedicado a provocar a imaginação do espectador. Sem limitar-se a convenções de tempo e espaço, Peer Gynt adentra no reino dos trolls, viaja ao Egito, faz negócios no Marrocos, passa por um hospício e conversa com uma esfinge. São situações de complicada resolução para os encenadores – Ibsen concebeu a obra, inicialmente, como um poema. Só anos depois, resolveu adaptá-la para o teatro. Mas Villela se vale de tais menções para criar imagens fantásticas, com o uso de máscaras, figurinos exuberantes e tiradas de humor. 

Além dos recursos visuais, a encenação apoia-se, amplamente, na atuação do protagonista. Muitos são os personagens previstos na obra (em algumas montagens chegam a uma centena), tantos que muitos atores precisam se desdobrar para dar vida a três ou quatro deles. Mas a preponderância do papel-título é inegável. E a escolha de Chico Carvalho para ocupá-lo, um imenso trunfo.

Festejado por sua atuação em Ricardo III (2013), o intérprete tem construído sólida carreira. Chama atenção, sobretudo, sua fina ironia em cena. Mesmo afinado com a opção alegórica da encenação, é impressionantemente sutil ao demonstrar os sentimentos e desejos contraditórios desse herói sem nenhum caráter: Capaz das maiores mentiras, de todos os amores, das atitudes mais atrozes. Chico desfaz esse novelo para o espectador com gestos mínimos e olhares precisos. É um sátiro, a rir das incongruências do mundo e a zombar das convenções. Não respeita as estruturas de poder e autoridade, mas se aproveita delas em benefício próprio. Lembra, por isso, Pedro Malasartes, figura tradicional da cultura ibérica, protótipo do malandro à brasileira. 

Concebido para a reabertura do Teatro do Sesi, o espetáculo é apresentado em horário de matinê e destinado ao público juvenil. Para torná-lo viável, o encenador transformou as suas cinco horas de duração em apenas duas. Com tal operação, porém, pode-se considerar a hipótese de que a história e seu entendimentos tenham ficado, em alguma medida, prejudicados. Saltos no tempo e deslocamentos inexplicáveis fazem parte da dramaturgia original. O que parece se perder, realmente, é o entendimento do percurso feito por Gynt. A plateia acompanha muitos quadros musicais e diverte-se com os delírios do protagonista. Mas, entre a empáfia da juventude e o desamparo da maturidade, o que se deu? Ao cabo, a que ou a quem Peer Gynt foi fiel? Há um ponto de inflexão que fica nublado entre cores e canções. 

PEER GYNT

Teatro do Sesi. Avenida Paulista, 1.313, telefone 3528-2000. Sáb. e dom., às 15h30. 14 anos. Grátis. Até 18/12

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