ALEX SILVA|ESTADÂO
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Diretor e ator Eric Lenate fica 'cego' em ‘Fim de Partida’

Ele utiliza lentes de contato para simular cegueira de Hamm, figura ranzinza da peça do ilusionista das palavras Samuel Becket

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2016 | 03h00

Ao perguntar para um artista qual a razão de se levar para o palco determinada obra ou clássico, por vezes a resposta será: “porque ela é muito atual.” Mas nada disso funciona com o dramaturgo Samuel Beckett (1906-1989). A figura de uma mulher enterrada até o pescoço, falando de sua rotina em Dias Felizes, ou a jornada dos viajantes em Esperando Godot não parecem peças que retratam “atualidades”. A questão que surge é curta: “Por que montar uma peça de Beckett?” 

Nessa quinta, 2, o diretor Eric Lenate voltou com Fim de Partida no Sesc Pinheiros. A montagem fez curtíssima temporada durante o Cultura Inglesa Festival, no ano passado. A narrativa absurda concebida pelo dramaturgo irlandês confina quatro sujeitos no que parece ser um abrigo pós-apocalíptico. No palco, o diretor também interpreta o velho ranzinza Hamm, ao lado de Rubens Caribé, no papel de Clov, seu serviçal. “É importante montar Beckett porque ele pertence a tempo nenhum”, explica o diretor. “Ele foi capaz de escrever com uma mão cirúrgica sobre o sentido e a falta de sentido das coisas.” 

Na história, Hamm é cego e paralítico e Clov não pode se sentar. “Acho que é uma pulga”, diz Clov ao se coçar. “Uma pulga! Ainda há pulgas?”, pergunta Hamm. “Mas a humanidade poderia se reconstituir a partir dela! Pegue-a, pelo amor de Deus”, continua. O quadro se completa com os pais de Hamm, Nagg e Nell, interpretados por Ricardo Grasson e Miriam Rinaldi. Os dois velhinhos estão metidos em duas latas de lixo e ficam implorando ao filho por comida, diga-se, biscoitos e caramelos, ou o que sobrou na despensa trancafiada por Hamm. Enquanto nada acontece, o par relembra histórias de quando ainda tinham pernas. “A família é o berço da loucura”, diz Miriam que não esteve na montagem original. “Beckett cria diálogos que expressam exatamente o que os personagens querem dizer. Não existe um subtexto ou algo implícito”, conta a atriz. Essa relação de dependência se aprofunda, de maneira realista, na relação de Hamm e Clov. Lenate utiliza um par de lentes de contato para simular a cegueira do personagem. “Enxergo tudo leitoso e isso me dá uma dependência do Caribé no palco.”

Junto com a necessidade do outro, surgem os espinhos da relação. Em vários momentos, Hamm oprime o companheiro de abrigo com palavras duras. “Um dia você estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então, você será como um pedregulho no estepe.” Todos esses diálogos crus podem gerar as mais diversas reações na plateia. O incômodo diante do obscuro absurdo escrita pelo irlandês também pode dar lugar ao riso. O diretor britânico Peter Brook já disse que quem ataca o dramaturgo por ser pessimista em suas peças, acaba se transformando um de seus personagens, presos em uma típica cena de Beckett. “Ao mesmo tempo em que o autor parece não ter nada, ele te entrega tudo. É a arquitetura das coisas indizíveis”, conta Lenate.

E o grande desafio, para além de saborear o texto são as maneiras de levá-lo ao palco. O diretor defende que o silêncio é primordial para concretizar essa ambientação. “Beckett se preocupou em não dizer muitas coisas. Por isso o texto é tão preciso. O espaço entre uma fala e outra tem que ser calculado de maneira milimétrica.” Para isso, ele ressalta que metade do esforço fica por conta dos artistas. “E o público também precisa trabalhar. Nós oferecemos de um lado, eles recebem e nos devolvem. Tudo pode acontecer com Beckett. E ele é fascinante por ser, justamente, incapturável. 

FIM DE PARTIDA. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195. Tel.: 3095-9400. 5ª, 6ª, sáb., 20h30. R$ 7,50 / R$ 25. Até 2/7. 

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