Sammi Landweer
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Direitos da famosa obra da francesa Maguy Marin são cedidos a alunos de dança da Maré, no Rio

Projeto é coordenado pela coreógrafa brasileira Lia Rodrigues

Fernanda Perniciotti, ESPECIAL PARA O ESTADO

18 Maio 2018 | 21h40

Pela primeira vez, Maguy Marin, um dos ícones da dança francesa, cedeu os direitos de sua obra mais famosa, May B (1981), quase 40 anos depois da estreia. A concessão foi aos jovens aprendizes da Escola Livre de Dança da Maré, no Rio de Janeiro, coordenada pela coreógrafa brasileira Lia Rodrigues.

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A emblemática criação de May B, na década de 1980, teve como mote inicial a adaptação, em dança, do trabalho do escritor e dramaturgo irlandês, Samuel Beckett, que, à época, não apenas autorizou a sua obra à coreógrafa francesa, como a convidou para discuti-la. May B também é um símbolo da ligação entre Lia Rodrigues e Maguy Marin, pois a brasileira fez parte do elenco que participou do processo de criação e estreia. 

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De Ste Foy Lyon para o Rio de Janeiro, May B na Maré: uma fraternidade é o resultado de uma iniciativa que há algum tempo vem sendo maturada, como explica Maguy: “Há vários anos, temos tido um sonho conjunto, Lia e eu, de transmitir a peça May B para seus alunos da Maré. A afinidade artística e política associada à amizade que há muito nos une nos leva a fazer o impossível para que esse projeto finalmente se torne realidade”.

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A história de Lia na Maré começou em 2004, quando em parceria com a dramaturgista e crítica de dança carioca, Silvia Sotter, e a ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, passou a desenvolver projetos no complexo de favelas, o que desembocou na criação do Centro de Artes da Maré, sede da Lia Rodrigues Cia de Danças, em 2009, e da Escola Livre de Dança da Maré, em 2011. Os 15 estudantes que participaram de May B são parte do Núcleo 2, um intensivo de formação continuada dentro da Escola.

May B na Maré, que foi integralmente subsidiado por instituições francesas, aconteceu no Centro de Artes da Maré (Rio de Janeiro), no Ramdam Centre D’Art (Lyon), dirigido por Maguy Marin, e, por fim, em 6 cidades da França, em uma turnê de 13 apresentações. Além de Isabelle Missal, responsável pela transmissão da obra, e Amalia Lima, professora e ensaiadora, Lia e a própria Maguy estiveram presentes durante o trabalho com os jovens artistas.

Ideais. O processo de remontagem materializou o abismo entre dois contextos, separados não apenas pela distância geográfica: “O que me une a Maguy são os nossos ideais éticos, políticos, mas as nossas realidades são completamente diferentes e as nossas estratégias para sobreviver também”. Abismo que é também reconhecido por Marllon Araújo, membro do Núcleo 2 desde 2013: “O normal para o ser humano é que as coisas na cidade funcionem bem e que você possa viver minimamente com segurança e que você tenha o direito de ir e vir. Na Maré, não é assim. No Rio, não é assim. Mas a gente vai dando o nosso jeito resistindo e buscando sempre o melhor... por Anderson, por Marielle, por Matheusa!”.

O assassinato de Marielle Franco, em 14 de março, impactou o Núcleo durante a turnê, por conta da proximidade que tinham com a vereadora que, como eles, também foi moradora da Maré. “Perdemos uma de nós!”, enfatiza Marllon, que, à ocasião, junto ao grupo, organizou um ato com cartazes de repúdio, publicado no Facebook e transmitido pela mídia nacional. “Ficamos felizes, pois sentimos que, mesmo de longe, o nosso grito foi ouvido, mostrando que estávamos ali, Mareenses na Europa, e não iam nos calar, e não vão nos calar. Com cartazes e gritos de “Marielle Presente” e “Lula Livre”, encerrávamos o espetáculo no teatro 104 em Paris”, conta Marllon. 

A turnê chegou ao fim no início de maio. Agora, Lia Rodrigues planeja que a estreia em território nacional aconteça no Centro de Artes da Maré em 2018. A agenda de apresentações em outros lugares do Brasil ainda está incerta, mas a previsão é 2019. 

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