Victor Hugo Cecatto/DIVULGAÇÃO
Victor Hugo Cecatto/DIVULGAÇÃO

Dib Carneiro Neto estreia 'Pulsões' sobre amor, loucura e arte

Com direção de Kika Freire, 'Pulsões' parte de estudos da psiquiatra Dra. Nise da Silveira com pacientes esquizofrênicos

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2015 | 05h00

De acordo com a Medicina Psicossomática, o termo embotamento afetivo é a dificuldade de expressar sentimentos em virtude da incapacidade de elaborar – compreender – as experiências vividas. Esse tipo de comportamento seria um mecanismo de defesa observado em indivíduos que vivenciaram tragédias e situações traumáticas intensas, bem como em pacientes esquizofrênicos. Mas a alagoana Nise da Silveira (1905-1999) não acreditava em nada disso.

Inspirado nos estudos desenvolvidos pela psiquiatra, o jornalista e dramaturgo Dib Carneiro Neto estreia nesta sexta, 18, o espetáculo Pulsões. A montagem que cumpriu temporada no Rio de Janeiro agora ganha o palco do Teatro Sérgio Cardoso, com encenação da atriz e bailarina carioca Kika Freire. “Ela tinha uma premissa de que o amor era capaz de dar melhores condições de existência para esses pacientes”, conta Kika.

A total descrença no limbo emocional se exemplifica em uma anedota contada pela psiquiatra. Todas as manhãs, a paciente Luiza levava o café até a sala de Nise. Um dia, a psiquiatra foi presa por “possuir livros marxistas subversivos” em sua sala. Ao saber que sua doutora foi levada pela polícia política do presidente Getúlio Vargas, Luiza desferiu murros e golpes na infeliz enfermeira suspeita de ter feito a denúncia. 

Nise relatava que aquilo fora, paradoxalmente, “uma verdadeira reação afetiva”, e completava: “O esquizofrênico não é indiferente, não é não”. “Conversamos com profissionais e eles foram unânimes em falar que pulsão significa movimento. Na ponta final, está o desejo, e o percurso é feito por muitos caminhos”, explica Dib.

Na representação desse complexo jogo, Kika sugeriu um par de personagens. Na peça, uma bailarina (Fernanda de Freitas) e um maestro (Cadu Fávero) vivem uma relação simbiótica. “Existe uma interdependência entre eles. O maestro vive dos movimentos da bailarina, e ela, por sua vez, necessita da música dele para dançar”, conta Kika.

E, para falar de loucura, a narrativa se desenrola de maneira não linear, com um texto fragmentado e cheio de sugestões. “O diálogo entre eles oferece elementos que deixam dúvidas”, conta Dib. “O que são? Amigos? Marido e mulher? Paciente e terapeuta? Artistas? Por vezes, até os próprios personagens têm falhas na memória.” E o universo lúdico se faz presente na realidade onírica de Pulsões. O texto entrega referências do mundo das crianças e seus jogos. “Tem uma cena na qual eles fazem aquela brincadeira de forca, sabe? O desafio é descobrir palavras que machucam.” 

Ao conduzir esses elementos ao palco, Kika concebeu a criação do figurino com Teca Fichinski. “Nós retomamos o trabalho que a Dra. Nise realizava com seus pacientes. Ela acreditava que, por meio da pintura, poderia acessar o inconsciente deles. Disso, surgiram pinturas lindas produzidas pelos pacientes. Isso está traduzido na suavidade da maquiagem e nas roupas dos atores. Eles são como obras de arte”, afirma. No ritmo, o movimento dos corpos dos atores acaba por acompanhar o conjunto. “São movimentos dilatados mas também tortos por conta dessas complexidades.” Dib também aponta o cenário que usa móbiles para reforçar a questão de movimento. “A Kika cuidou dessa plasticidade que nunca estaciona e está sempre se movendo.” 

Na trilha sonora, alguns trechos do texto se transformaram em canções pelas mãos do diretor musical Marco França. O dramaturgo conta que a partitura musical mistura as emoções, entre elas o amor, o afeto, a raiva e o ciúme. Segundo ele, o espetáculo, que estreou no carioca Teatro Poeira, passa a existir fora do tempo, em um não lugar. “Gosto de uma frase famosa de Nise que me motivou a começar esta peça. Ela fala ‘não se curem além da conta. Gente curada demais é chata’.” 

Para Kika, a Dra. Nise lutou contra todo tipo de tratamento desumano e combateu o preconceito contra os “loucos” com arte e poesia. Dib relaciona tudo isso à própria definição de pulsão, que todos nós temos. “É vida querendo mais vida.”

PULSÕES. Teatro Sérgio Cardoso. R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 3288-0136. Estreia hoje. 6ª a dom., às 20h. R$ 30/R$ 60. Até 18/10.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.