AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
AMANDA PEROBELLI/ESTADAO

Diante do machismo, 'O Quarto Estado da Água' investiga o novo masculino

Kiko Pissolato, Anderson di Rizzi e Herbert Richers Jr. vivem as fases de um homem em reconstrução

Leandro Nunes , O Estado de S.Paulo

22 Abril 2017 | 03h00

Foi por causa do mineral berilo que nasceu a peça O Quarto Estado da Água. A notícia de que cientistas encontraram moléculas de água aprisionadas dentro da rocha inspirou a montagem da Cia Pau D’arco a refletir sobre a fluidez da sexualidade masculina. 

O espetáculo que estreia neste sábado, 22, no Top Teatro, retrata a vida de três homens em diferentes épocas. “A água presa naquela rocha não era líquida, nem sólida nem gasosa. Essa forma desconhecida se juntou à nossa inquietação sobre o homem contemporâneo”, explica a diretora Bia Szvat. 

Na peça, os sujeitos fogem da agitação de uma festa de ano novo e vão para a cobertura. O encontro de Kiko Pissolato, Anderson di Rizzi e Herbert Richers Jr. desencadeia um mergulho nas memórias desses homens, que também podem ser um só. Os eventos relembrados passam pela descoberta da própria identidade, a partir da repressão a comportamentos não considerados masculinos. Embora a mulher seja vítima direta do machismo, a diretora afirma que o homem também fica preso nesses ditames. “O preconceito diz que o masculino não pode manifestar sensibilidade ou outras características consideradas femininas ou fracas. Esse tipo de consciência não funciona com todas as pessoas.”

Em uma das cenas, dois garotos descobrem um o corpo do outro, se beijam e sofrem repreensão de um adulto. Para Pissolato, pai de um menino de dois anos, o desafio é perceber quando não se julgando ou reproduzindo machismo, ainda que seja sutil. “Fico pensando como coisas como piadas que podem ser tão perigosas hoje, mas que antes todo mundo achava normal.” Di Rizzi afirma que o espetáculo quer explorar a sensibilidade que não se encaixa em um padrão. “A luta das mulheres transformou a sociedade e todos nós. Isso inspira um novo posicionamento, uma releitura sem medo da nossa própria condição."

Um encontro de identidades sólidas, líquidas e gasosas 

Diante de um elemento tão versátil como a água, a montagem usa a comparação para moldar o perfil das personagens. No fluxo de memórias, a diretora explica que o homem mais velho carrega a liquidez consigo, enquanto a criança se identifica no estado gasoso e o adulto, na solidez do gelo. “São três perfis em transformação, que se tornaram o que são ao passarem por diversas experiências na vida.” Com um trilha executada ao vivo, os atores ainda tiveram aulas de balé, flamenco e tango, e dançam ao som de violoncelo, acordeão e sax. “Queremos explorar a sonoridade e a ação desses corpos no palco”, conta Bia. No cenário, cubos de gelo escorregam no chão e sacos com o líquido ganham as cores de pedras preciosas. A história ocorre momentos antes do ano novo. E a diretora afirma que ainda vai chover. 

O QUARTO ESTADO DA ÁGUA

Top Teatro. R. Rui Barbosa, 201. Tel.: 2309-4102. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 50 / R$ 25. Estreia neste sábado, 22. Até 18/6. 

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