Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Desafios e vitórias de uma atriz com síndrome de Down

Conhecida pela série de TV 'American Horror Story', Jamie Brewer protagoniza a peça 'Amy and the Orphans'

Sopan Deb, THE NEW YORK TIMES

24 de fevereiro de 2018 | 16h00

No final de 2015, a dramaturga Lindsey Ferrentino e a atriz Jamie Brewer assistiram a um clipe de Donald Trump, na época candidato, zombando de uma repórter com deficiência física. Elas ficaram horrorizadas, o que tornou a peça que estavam escrevendo, focada numa personagem com síndrome de Down, muito mais importante. “A peça passou a ter um novo significado para mim”, contou Lindsey.

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Amy and the Orphans (Amy e os Órfãos), que estreia em 1.º de março no Laura Pels Theater, é um espetáculo que rompe barreiras. Jamie Brewer, de 33 anos, e Edward Barbanell, de 40, são os únicos artistas conhecidos nos EUA com síndrome de Down a interpretar protagonistas no teatro, na Broadway ou fora dela.

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Trama é sobre três irmãos que se reúnem após a morte do pai. Lindsey, que estreou no teatro com a peça aclamada pela crítica Ugly Lies the Bone, em 2015, foi insistente no sentido de que o papel principal fosse interpretado por alguém com a deficiência, deixando uma nota no primeiro rascunho do roteiro: “Achar um ator talentoso com síndrome de Down não é difícil. Portanto, façam isso”.

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Jamie Brewer é uma atriz veterana conhecida por seu trabalho na série de TV American Horror Story. Edward Barbanell, que faz o papel de Eddie, foi Billy no filme The Ringer, de 2005. Ele e Jamie trabalham em teatro há muito tempo. Mas assumir um papel de primeiro plano é um desafio novo.

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“O maior obstáculo é o volume de diálogos e a direção de palco, tudo ao mesmo tempo”, diz Gail Williamson, agente de Brewer e conhecido defensor dos artistas com deficiência. “Quando você faz um programa de TV ou filme, tem uma cena e trabalha em cima dela. No teatro, você tem de dominar tudo de uma vez.”

No local dos ensaios, Jamie repassava os diálogos com o elenco, Debra Monk, Mark Blum e Vanessa Aspillada. Na cena, Amy, usando fones de ouvido enquanto assiste a um filme em seu tablet, recebe a vista dos irmãos, vividos por Debra e Mark. Vanessa interpreta uma cuidadora. A cada cinco minutos, depois do início de uma cena, o diretor da peça, Scott Ellis, interrompia para fazer comentários e ajustes.

As paradas e os inícios eram especialmente importantes para Jamie. Quando mais repetia a cena mais fácil era a memorização e mais as cenas eram inculcadas na memória muscular. “Excelente, Jamie”, disse Ellis. “Vamos repetir mais uma vez.”

A peça se baseava na tia de Lindsey, Amy Jacobs, já falecida e que tinha síndrome de Down. Quando começou a escrever o roteiro, o processo ficou complicado diante da capacidade verbal limitada da tia. Em 2015, ela recorreu a Williamson, cuja lista inteira de clientes é constituída de atores com deficiência. Williamson colocou-a em contato com Jamie Brewer, a primeira pessoa com síndrome de Down a desfilar na New York Fashion Week. As duas se reuniram para um café e logo se tornaram amigas.

Defender as pessoas com deficiência é um papel que Jamie Brewer e Edward Barbanell levam a sério. Ambos querem abrir portas e mudar comportamentos. Edward trabalhou como garçom em um centro de ajuda e constantemente ouvia os colegas dando apelidos jocosos para pessoas deficientes.

Quando soube que estava no elenco de Amy and the Orphans ele deixou uma mensagem aos colegas na saída do centro: “Deem uma olhada em mim agora”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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