ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Depois do vilão de ‘Verdades Secretas’, Rodrigo Lombardi é o novo policial de ‘Urinal’

Musical fica em cartaz em São Paulo até o dia 14 de dezembro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2015 | 05h00

A despedida terminou na tarde de sábado passado, dia 26. “Fim. Agora, o luto. Por pouco tempo”, escreveu o ator Rodrigo Lombardi em sua página no Instagram, quando chegava ao Teatro do Núcleo Experimental para seu primeiro grande ensaio de Urinal, o Musical, espetáculo no qual assume um papel a partir do dia 16 de outubro. Mais um grande desafio em sua carreira, marcada por outros tantos.

Como o que se encerrou na noite de sexta-feira, 25, com o último capítulo da novela Verdades Secretas. No papel do inescrupuloso empresário Alex, homem capaz de comprar as pessoas apenas para ter seus desejos realizados, ele monopolizou a atenção. “Quando começamos a gravar, Maurinho (o diretor Mauro Mendonça Filho) me disse: ‘Não tenha medo de ser odiado nas ruas. Vá em frente’”, recorda-se Lombardi. “Mas, para minha surpresa, o público entendia as intenções de Alex e não o condenava. O que foi realmente surpreendente nessa novela é que, pela primeira vez, a televisão contou uma mentira muito próxima da realidade em termos de valores.”

De fato, Verdades Secretas tratou abertamente de temas sempre considerados tabu, como drogas, prostituição, alcoolismo, bissexualismo. “Nenhum assunto era novo, tudo já foi visto alguma vez no Jornal Nacional ou até no Globo Repórter. Mas, como não era um produto documental e sim ficcional, a novela causou impacto, mesmo apenas mostrando a ponta do iceberg.”

Em dez anos como contratado da Globo – período em que participou de nove novelas –, Rodrigo Lombardi acompanhou a evolução temática dos folhetins, movimentos ora ousados, ora conservadores. E Verdades Secretas foi um importante passo à frente. “Tivemos uma oportunidade rara, que foi a de trabalhar exaustivamente cada cena, cada novo rumo dos personagens”, observa. “Como foram apenas 64 capítulos, tivemos um ritmo de gravação bem menos frenético – eram cerca de 8 cenas por dia, quando, em uma novela, são habitualmente 45. Isso fez com que todo o elenco, que também era reduzido, participasse ativamente com sugestões e opiniões.”

Foi essa união que também permitiu sua aproximação de Urinal – em cartaz desde abril, o musical logo despertou atenção, tornando-se um sucesso quase imediato. Amigo de Zé Henrique de Paula, diretor do espetáculo, Lombardi decidiu assistir a uma sessão de sábado. Ficou alucinado e voltou nas seis seguintes, sempre acompanhado de algum colega da novela. “Marieta (Severo) ficou empolgadíssima, disse que cairia como uma luva em seu teatro no Rio, o Poeira.”

Lombardi, assim como todos os privilegiados que conseguiram algum dos 56 ingressos (capacidade máxima do Teatro do Núcleo Experimental), ficou fascinado pela incrível atualidade do espetáculo – o musical trata dos graves problemas provocados pela escassez de água. O tom é de comédia: em algum momento do futuro, é possível concluir, uma seca de 20 anos resultou em uma terrível falta de água que obriga os donos do poder a proibir a existência de banheiros particulares – toda atividade sanitária só pode ser realizada em sanitários públicos, controlados por uma megacorporação, a Companhia da Boa Urina, cujo comandante é conhecido por Patrãozinho. 

Só que o uso dos banheiros é pago e quem é flagrado fazendo necessidades fora desse espaço é enviado para uma suposta colônia penal chamada Urinal, de onde ninguém volta. Contra isso, surge o jovem Bonitão, que lidera uma revolta popular favorável ao franqueamento do uso dos banheiros. 

“O musical trata de um assunto premente, que é a falta d’água, mas também – e isso é muito legal – mostra como as pessoas precisam se mobilizar para evitar uma desgraça maior. Ensina que não devemos ter sonhos utópicos, mas sonhos realizáveis.”

Definitivamente, Lombardi desvencilhou-se do sisudo Alex de Verdades Secretas. Na conversa com o Estado, ele não poupa brincadeiras, sempre temperadas com seu famoso sorriso. Que se abre ainda mais ao contar como chegou a Urinal. “Depois que conheci o espetáculo, passei a incentivá-lo de todas as maneiras”, conta. “Até que, certo dia, recebo um WhatsApp do Zé: ‘Quer participar do Urinal?’. Surpreso, respondi: ‘Qual papel?’. ‘O do Policial’. Gostei. ‘Quando começo?’. ‘Já’. ‘Aceito’.”

O convite era para substituir o ator Daniel Costa que, apesar de maravilhoso no papel, precisou sair para tratar de uma hérnia de disco. Há mais de um mês, o Policial é interpretado pelo próprio Zé Henrique. “Conheço Rodrigo há um bom tempo e ele foi um dos primeiros a se entusiasmar com Urinal, assistindo sempre e trazendo amigos”, conta o diretor. “Percebi também que ele brincava muito com o Daniel, imitando o Policial. Assim, como eu sabia da sua grande vontade de fazer um musical, resolvi convidá-lo.”

Lombardi, de fato, é fã do gênero. Em uma temporada que passou em Nova York, assistiu a praticamente todos espetáculos da Broadway. No Brasil, quando viu Elis – A Musical, tomou coragem e confessou ao empresário Luiz Calainho, da produtora Aventura, sua disposição de participar de uma peça. Foi chamado para acompanhar as audições de Se Eu Fosse Você, mas foi convocado para a novela Meu Pedacinho de Chão. Agora, com a brecha na TV, tem finalmente sua chance. O entusiasmo é tamanho que ele já tem um projeto envolvendo um livro, uma animação e um musical, tudo inspirado em uma só fonte. Pretende ainda produzir um stop motion inspirado em uma história de Chekhov e outro baseado no relato de sobreviventes de campos de concentração. Não bastasse tudo isso, vai estrelar ainda o próximo filme de Paulo Sacramento, a ser rodado em uma plataforma de petróleo. “Minhas férias se resumem a trabalhar nesses projetos”, diverte-se.

URINAL

Teatro do Núcleo Experimental. Rua Barra Funda, 637. Tel.: 3259-0898. 6ª, sáb. e 2ª, 21h; dom., 20h. R$ 80. Dia 23/10 não haverá sessão. Até 14/12

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