Aline Macedo
Aline Macedo

Debora Lamm vive Medeia moderna

Ao lado de um coro de mulheres, atriz invoca a fúria feminina ancestral capaz de tudo pela própria dignidade

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2017 | 03h09

Desde 2015 atuando no programa humorístico Zorra, da TV Globo, Debora Lamm afirma não ter dificuldade de transitar entre a interpretação de uma velhinha engraçada e a da força mitológica de Medeia.

Em Mata Teu Pai, que estreia nesta sexta, 5, no Sesc Ipiranga, a atriz percorre os passos dessa mulher estrangeira que matou o irmão e os próprios filhos para se vingar da traição do marido Jasão. “É tão bom participar de um programa tão crítico na televisão, que tem sua acidez e deboche”, conta. “No palco, o que me interessa é um discurso que chegue tão prontamente à plateia e o momento de falar sobre ser mulher é agora”, diz. 

Para ela, o projeto de transportar o mito grego de Eurípides, considerado protofeminista, para a modernidade se trata de uma discussão urgente. “A violência e opressão às mulheres acontece diariamente”, conta Debora. Com dramaturgia de Grace Passô, o texto ganhou o amparo de mãos negras e femininas, requisito primordial para a atriz. “Ela reuniu a dor dessa mulher que deixou o seu país e passou a viver como estrangeira com um homem que mais tarde a trairia. Além disso, Medeia estava sob ameaça de ser deportada e abandonada. Nada mais atual que um mundo dominado por homens”, explica a atriz. 

Para a diretora Inez Viana, a figura de Medeia choca por carregar dentro de si sentimentos tão intensos e contrários. “Chegamos a pesquisar mães que mataram seus filhos e suas razões. No caso de Medeia, ela sabia que dar cabo da própria espécie causaria uma dor maior em seu marido, ainda que ela também sofresse pelo luto.”

Nada disso quer dizer que a personagem está entregue à própria sorte. A diretora concretiza o coro de mulheres coríntias, do texto original, e traz ao palco um grupo de mulheres da terceira idade. Há cinco anos, Inez mantém aulas de teatro para maiores de 60 anos no Galpão Gamboa, zona portuária do Rio. “São pessoas à margem, dadas as condições sociais e econômicas do bairro.” Ela lembra que, na estreia carioca, 15 mulheres formaram um coro que se juntou a Debora no palco. “É interessante ver esse agrupamento que se une e se fortalece.”

Aqui em São Paulo, a montagem vai ganhar novas estrelas com idade entre 60 e 82 anos, muitas delas integrantes de um projeto de coral no Sesc, conta Inez. “Estou preparando um coro com dez mulheres.” Ela explica que já está há uma semana trabalhando com elas e diz que as histórias compartilhadas durante as aulas ajudam a fortalecer a importância de Medeia. “Em geral, elas querem participar porque sempre sonharam em ser atrizes ou bailarinas, mas, desde a infância, a família impediu que elas seguissem seus sonhos.” 

Segundo Inez Viana, muitas delas acataram a proibição e seguiram pelo caminho mais tradicional, como se casar e ter filhos. “Isso dá um caráter documental à peça, que toca a realidade. O tempo passou, mas o desejo delas permaneceu”, diz a diretora. “No Rio, uma delas me disse que esperou o marido morrer para começar a estudar teatro”, acrescenta a diretora.

MATA TEU PAI. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822. Tel.: 3340-2000. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 30 / R$ 15.  

Estreia 6ª (5). Até 28/5. 

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