Celeste Sloman/The New York Times
Celeste Sloman/The New York Times

De volta ao teatro depois de 32 anos, Annette Bening é indicada ao Tony

Ela é Kate Heller, a mãe pirada da peça 'All My Sons', de Arthur Miller

Alexis Soloski THE NEW YORK TIMES NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2019 | 03h00

“Há certas coisas das quais você realmente não quer falar”, disse Annette Bening. Foi numa bela terça-feira recente. Bening, de 60 anos, estava sentada a uma mesa de fundo de um café de subsolo do NoHo, comendo ovos mexidos. Faltavam poucas horas para ela entrar no palco do American Airlines Theater e começar a se transformar em Kate Heller, a mãe pirada no centro da peça de Arthur MillerAll My Sons – papel que deu a ela sua segunda indicação para o Tony e primeira para melhor atriz. 

Jesse Green, crítico de teatro do NYT, escreveu que em All My Sons “Bening mergulha para explorar a lama existente no fundo da personalidade de sua personagem”. E como ela faz isso?

Com voz grave, Bening disse que gostaria de poder falar a respeito. Para ela, no entanto, falar de como se prepara, de como trabalha, equivale a intelectualizar o papel, distanciar-se dele, violar alguma coisa velada (mesmo sagrada) existente no fundo do que ela faz. JackO’Brien, que dirige All Mys Sons para a Roundabout Theater Company, disse que raras vezes viu um ator “tão ansioso para se imolar na busca do honestidade”. Mas ele também não quis falar. “Respeito tão intensamente seu trabalho que não vou revelar nada sobre ela”, resumiu.

Como Bening diz, privacidade é importante e saudável nesta época de tanto compartilhamento. “Portanto, me perdoe”, pediu. Perdoei. Vocês também perdoariam, porque quando Bening concentra em nós toda a força de sua atenção e empatia, é como se ela ligasse um sol portátil.

Além disso, essa definição de limites é provavelmente a razão de ela parecer tão totalmente exposta no palco, tão imperturbável quando mordisca uma torrada, com seus óculos rosa e cabelos castanho- claros que se agitam para todo os lados. Bening gosta de ler entrevistas de atores em busca de detalhes que a ajudem na vida e na arte. 

Antes ser uma estrela, antes de se casar com Warren Beatty e ter com ele quatro filhos, antes de voltar à Broadway após uma pausa de 32 anos, Bening era uma atriz clássica. E então, como hoje, era cerebral, desinibida, elétrica. “Ela sempre se empolgava”, disse o ator Dylan Baker, que contracenou com Bening em Love’s Labour’s Lost, no Colorado Shakespeare Festival, de 1980.

“All My Sons é uma peça sobre responsabilidade, corrupção e relação entre economia em ascensão e violência”, disse Bening. Joe Keller, marido de Kate, tem uma indústria que fabrica cabeçotes (defeituosos) de motor durante a 2ª Guerra Mundial. Esses cabeçotes foram embarcados para a Austrália e usados em caças-bombardeiros. Vinte e um pilotos morreram. Três anos depois, em 1947, com um filho que voltou da guerra e outro desaparecido em combate, Joe é inocentado, mas a dúvida sobre sua culpa continua. “O que a peça pergunta é se somos responsáveis apenas por nós mesmos ou por um bem comum maior”, disse Bening. “É uma questão profundamente política.” 

Segunda Guerra

Mas sua relação com a peça, a que assistiu pela primeira vez como universitária, é mais pessoal. E aqui, finalmente, ela decide falar. Durante a 2ª Guerra, um dos irmãos mais velhos de sua mãe, Russell Ashley, alistou-se na Real Força Aérea Canadense (era velho demais para se alistar na Força Aérea dos EUA) e foi deslocado para a Índia. “E foi morto porque seu avião tinha uma falha mecânica”, disse Bening. O corpo nunca foi encontrado. Ela tem uma foto da família tirada logo depois. Sua avó tem na foto 60 ou 61 anos, mesma idade de Bening hoje. “Esse seu olhar...” Bening não completa a sentença.

Entretanto, perguntei o que isso acrescentava a Kate e Bening mais uma vez se esquivou elegantemente, falando de trechos da autobiografia de Miller não relacionados à pergunta. Ela admitiu que suas experiências como mãe influíram em sua atuação, mas apenas em termos gerais. “É psicologicamente impossível você ser um ator e não usar nada de sua própria experiência”, disse. 

Bening gostou de, após tantos anos, poder ficar longe de câmeras, microfones e gente arrumando seu cabelo, maquilagem e roupas. “No palco sou só eu e meus colegas atores ouvindo, olhando, respondendo”, disse ela. “Isso é libertador e emocionante.”

Significa que ela vai retornar logo à Broadway, sem esperar mais 32 anos? Annette Bening também não quis falar disso. Saiu-se com um enigmático “depende”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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