Sam Berube via The New York Times
Sam Berube via The New York Times

Danças com robôs e outras histórias de extrapolação dos limites

A inteligência artificial e a dança parecem aliados estranhos, à medida em que artistas e engenheiros estão usando a tecnologia para ir além do possível

Genevieve Curtis, The New York Times

10 de novembro de 2020 | 13h00

Num depósito desarrumado, a silhueta de um tronco e das pernas de uma dançarina começam a fazer ondulações. Iluminada apenas por um refletor anexado a uma máquina ela começa a se movimentar, traçando formas com seus braços.

Mas então algo peculiar ocorre. O refletor começa a se movimentar sozinho, sem comando. Reagindo à dançarina ele encontra seu próprio ritmo e bamboleia lado a lado. Logo fica difícil saber quem está liderando quem. O que está claro é que estamos vendo uma dança e que um dos parceiros tem 2,7 metros de altura e pesa mais de 226 quilos. Chamado ABB IRB 6700, ele é um dos maiores robôs industriais do mundo.

A dançarina e coreógrafa Catie Cuan é a estrela humana deste show, chamado Output, que faz parte de um projeto do Pratt Institute. E embora dançar com robôs soe um pouco como ficção científica, para Cuan, que está concluindo seu doutorado em engenharia mecânica na universidade de Stanford, “é como se fosse a extensão do meu corpo e minhas possibilidades”.



A ideia é de que a dança é algo feito por e para humanos, mas não é completamente inaceitável a possibilidade de robôs um dia se apresentarem para nós, mortais, particularmente quando coreógrafos como Cuan usam a tecnologia para explorar os limites mais extremos dessa forma de arte.

Um dos projetos dela é traduzir o vocabulário básico do balé e do jazz em articulações de um robô e criar o que chama de “balé para enxames de robôs, baseado na sua morfologia que faça uso da sua natureza inata”.

A natureza inata tem a ver com suas qualidades de movimento características - os toques precisos das suas juntas, o fato de ele não ter nenhum músculo para contrair ou relaxar - o que muda totalmente a percepção de colocação de peso e distribuição corporal.

Entrosar uma forma de arte tão ligada ao corpo com máquinas parece um paradoxo. Mas segundo Cuan, “a inteligência artificial é uma ferramenta coreográfica que poderá alterar o processo de produção da dança”.

Na vanguarda deste campo que vem crescendo está Sydney Skybetter, um ex-dançarino e professor de “arte coreográfica”, como ele chama, na Brown University, onde seus alunos focam a dança de uma maneira muito computacional - como o uso de aprendizado de máquina para criar avatares digitais fantasmagóricos que dançam junto com dançarinos humanos.

Skybetter e Cuan se juntam a uma série de artistas que vêm fazendo experimentos com a tecnologia para abrir novos caminhos na dança. O pioneiro foi o coreógrafo Merce Cunningham que, trabalhando com a artista Thecla Schiphorst, usou um programa de software chamado LifeForms que produz esboços do movimento.

Trackers (1991) foi a primeira dança de Cunningham criada com o LifeForms e aproximadamente um terço dos movimentos foi gerado em computador. O uso do software abriu “possibilidades de trabalho em termos de tempo e espaço que jamais imaginei antes”, disse ele na época.

No final do século 20 a captura de movimento, a tecnologia usável e a realidade virtual surgiram em cena. Depois veio a inteligência artificial. Um dos primeiros grandes artistas a trabalhar com ela foi a coreógrafa Trisha Brown, que em 2005 usou um programa que respondia aos movimentos dos seus dançarinos traçando gráficos que eram então projetados no palco.

Nos últimos cinco anos, o Google Arts and Culture vem colaborando com artistas da dança, incluindo a Companhia Bill T. Jones/Arnie Zane e a companhia de dança de Martha Graham. O Google lançou o Living Archive - um atlas interativo de meio milhão de movimentos extraídos do repertório do coreógrafo Wayne McGregor. O arquivo permite ao usuário escolher poses e construir uma frase de dança diante da câmera e deixar para o computador encontrar o equivalente visual mais próximo que será o elemento básico para uma nova sequência.

Damien Henry, diretor de projetos no Google, também desenvolveu uma máquina mais avançada para McGregor usar. Essa máquina foi alimentada com uma seleção de dados do Living Archive e 100 horas de filmagem de danças de McGregor. Nos ensaios, o algoritmo capturou os movimentos dos dançarinos via webcam e imediatamente fez uma renderização para a tela de uma seleção de 30 sequências originais no estilo de McGregor.

Ele e seus dançarinos as escolhiam para adotar ou desenvolver o material produzido.

“Às vezes o algoritmo dava sugestões que o dançarino não gostaria de usar. Mas então Wayne percebeu que eram extremamente úteis. Forçava um dançarino a explorar um território antinatural”.

Em julho de 2019, a Companhia Wayne McGregor estreou o Living Archive: An AI Performance Experiment [Arquivo Vivo: Uma Experiência de Performance de Inteligência Artificial, em tradução livre], um trabalho de 30 minutos desenvolvido em conjunto com o programa, no Music Center, em Los Angeles.

“Todos nós temos inclinações e maneiras para perceber o mundo”, disse McGregor. “A Inteligência Artificial nos permite mais autoconhecimento. Ajuda você a tocar seu “instrumento” de modo diferente”.



Alguns artistas da dança vêm pensando na Inteligência Artificial como um instrumento técnico e indicador de movimento. Pontus Lidberg, diretor artístico do Danish Dance Theater, se dispôs a usar a Inteligência Artificial como parte mais integral da sua coreografia nos ensaios e nas apresentações. O objetivo: criar uma dança que articule a tensão entre o homem e a máquina, colocando os dois juntos no palco.

Em 2019, Lidberg começou a trabalhar com a artista de computação Ceclie Waagner Falkenstrom. “Não queríamos criar algo para provar que um algoritmo pode encontrar padrões. Isso é chato. Mas a ideia foi criar algo que nos toca como seres humanos”, disse ela.

“Como a Inteligência Artificial foi treinada em mais do que o meu vocabulário de movimentos, ela aprendeu muito a desconstruir este conhecimento e depois recriá-lo com os dançarinos - isto criou algo inteiramente novo”. Cada performance da dança, chamada Centaur (2020) é um evento distinto, imprevisível - uma alegoria da nossa relação com a tecnologia”. (A companhia atualmente vem se apresentando na Europa).


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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