Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Dança se despede de Hulda Bittencourt, que deixa legado precioso

Coreógrafa criou a Cia. Cisne Negro, uma das principais do País

Fernanda Perniciotti, Especial para o Estadão

03 de novembro de 2021 | 05h00

Na segunda, dia 1.º, a dança brasileira perdeu Hulda Bittencourt, fundadora da Cisne Negro Cia. de Dança, aos 87 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). 

Hulda é uma daquelas figuras que parecem ter sempre existido, pela consistência que a continuidade de um trabalho por décadas é capaz de conquistar. A artista veio de uma linhagem que formou boa parte dos profissionais da dança brasileira, entre 1970 e 1980.

Aluna de Maria Olenewa, russa radicada no Brasil, fundadora da primeira escola de balé do País, Hulda foi uma das principais mantenedoras do pensamento moderno no balé – apostava na universalidade dos passos para tratar dos mais diferentes temas. 

Quando, em 1958, fundou o Estúdio de Ballet Cisne Negro, iniciou ali uma trajetória responsável pela descoberta de grandes bailarinos e vitrine de coreógrafos que, até hoje, estrelam mundo afora. Logo na abertura, o Estúdio trazia uma novidade: aulas de dança para meninos, o que, à época, era alvo de olhares preconceituosos. O compromisso com a educação de corpos clássicos, de alto rendimento, foi uma marca que continuou com a Cisne Negro Cia. de Dança, criada em 1977. No período, a companhia foi formada a partir de um elenco misto, entre os seus alunos, do Estúdio, e estudantes de Educação Física da USP, já demonstrando a vocação em compor as duas áreas – dança e educação física. Outro marco que está na base de sua formação, a professora checa Vera Kumpera, apostava na aproximação entre os corpos acrobáticos da educação física e a dança clássica. 

Beleza e inovação

Hulda reforçava o interesse por novas plateias e acreditava que isso só era possível com a mistura de beleza e inovação. Assim como outros grandes nomes da dança no País, precisou enfrentar dificuldades para manter a Cisne Negro atuante, uma vez que nunca recebeu um financiamento contínuo, como contou em 2012, em entrevista ao Estadão: “A nossa situação sempre foi a de superar dificuldades. Lembro daquela fase em que o dinheiro de todos foi sequestrado, (...) e que, em vez de acabar com tudo, (...) fui ao banco escondida e pedi um empréstimo”. 

A dança se despede de mais uma grande mestra, que leva consigo um certo jeito de continuar a produzir, mesmo diante dos desafios. A última atividade de Hulda, antes de ser levada ao hospital, foi assistir à coreografia primavera, do Grupo Corpo, no Teatro Alfa: uma grande despedida para quem se dedicou tanto aos teatros. É também no Alfa que está programada mais uma temporada do seu famoso Quebra-Nozes, dançado ano após ano, tradicionalmente desde 1984. Resta agora continuar a acompanhar o seu legado, através do Estúdio e da Cisne Negro Cia. de Dança, que já caminham sob direção de suas filhas, Daniele e Giselle.

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