Julieta Cervantes
Julieta Cervantes

Dança questiona crises sociais e políticas globais

Mais enxuto, 12º Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo começa nesta terça, 5, e terá Ligia Lewis e Panaíbra Canda

Fernanda Perniciotti, Especial para 'O Estado'

07 de novembro de 2019 | 08h00

Como resistir e reinventar quando as crises sociais, políticas e econômicas se tornam constantes? A dúvida que tem tomado boa parte das ações culturais é também a que move a 12.ª edição do Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo, que, com uma programação enxuta, ocorre até 10 de novembro, no Itaú Cultural, Sesc Avenida Paulista e Centro Cultural São Paulo. 

Neste ano, por causa das dificuldades financeiras que comprometem não apenas os patrocinadores e parceiros brasileiros, mas também os internacionais, o festival traz apenas duas apresentações: a coreógrafa dominicana Ligia Lewis, com Minor Matter, e o moçambicano Panaíbra Gabriel Canda, que traz Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta. “São artistas que estão pensando o mundo através do corpo, experimentando a partir de questões contemporâneas e urgentes”, disse Adriana Grechi, diretora artística do festival, em entrevista ao Estado

Identidades em fluxo, o indivíduo como algo não permanente, em constante transformação a partir dos contextos culturais e dinâmicas sociais: essa é a temática que perpassa os dois trabalhos. A ideia é trazer à cena corpos que não se submetem ao exotismo do fetiche colonial, a partir das diversas metáforas associadas, principalmente, às formas da negritude. 



“Tento trabalhar essas questões identitárias a partir das dinâmicas do próprio ser. A identidade não é uma coisa estática, há camadas que vão formando o indivíduo. São essas diferentes camadas que eu uso para falar do corpo moçambicano, africano e, principalmente, o meu próprio corpo, que está em cena. Identidades que vão se transformando a cada etapa da vida”, explicou Panaíbra sobre Tempo e Espaço.

Já Ligia Lewis propõe uma relação entre a ideia de corpo negro e a proposição de “caixa preta” teatral, em um jogo de propor novos sentidos estabilizados. A proposta é oferecer ao público uma pergunta sobre limites – de compreensão, leituras, determinações –, a partir de jogos de exaustão, colaboração e embate entre os artistas, propostos pela cena.

Apesar dos trabalhos serem de contextos diversos, compartilham uma mesma crise política, que os une. “Há uma tendência, na esfera global, de intolerância à diversidade, ao grande valor da liberdade de expressão, de democracia”, afirmou Panaíbra. 

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