Milton Michida/ Estad]ap
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Crítico analisa a presença de Ruth Escobar no teatro

Atriz e produtora cultural morreu nesta quinta-feira aos 81 anos

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 15h35

Ruth Escobar assistiu 2001, Uma Odisseia no Espaço na noite de 18 de julho de 1968, uma quinta-feira. Ao sair da fantasia futurista de Stanley Kubrick, voltou no tempo. Um bando de extrema-direita, como na Alemanha dos anos 30, havia invadido e depredado a Sala Galpão do teatro que leva seu nome, na Rua dos Ingleses, e que apresentava o espetáculo Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda, com direção de José Celso Martinez Corrêa e um elenco liderado por Marília Pêra e Rodrigo Santiago. Intérpretes e técnicos foram espancados, alguns com gravidade, as mulheres tiveram as roupas rasgadas (uma delas, aos gritos, avisava estar grávida). A operação com apoio policial-militar camuflado, o que os envolvidos reconheceriam os mentores da ação mais tarde, definindo o ataque, com cassetetes e soco inglês, como uma reação deles ao "esquerdismo e aos maus costumes" disseminados no palco. 

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No dia seguinte, Roda Viva voltou com a proteção de colegas de profissão, estudantes e jornalistas. Um futuro crítico teatral estava entre eles com um pedaço de madeira debaixo do casaco, horrorizado diante da possibilidade de ter de usá-lo. Os atacantes deixaram o aviso que voltariam se o espetáculo não parasse. Não voltaram porque os artistas criaram um fato político de grande repercussão, mas o confronto do teatro com a ditadura implantada em 1964 continuou. O Teatro Ruth Escobar, com ela à frente, foi a base operacional dessa resistência em São Paulo.

No outro espaço do edifício, a Sala Gil Vicente, estreou A Primeira Feira Paulista de Opinião com peças curtas de vários autores expondo criticamente a realidade brasileira. Considerando-se que o regime endurecia cada vez mais e se estava às vésperas do Ato Institucional Número 5 (AI-5), é fácil imaginar as críticas de Plínio Marcos, Gianfrancesco Guarnieri, Lauro Cesar Muniz, Augusto Boal, Jorge Andrade e Bráulio Pedroso, encenados por Boal e com composições de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sérgio Ricardo e Ary Toledo. A Censura usou a proibição branca ao retardar sua decisão e depois impor 84 cortes. Foram rejeitados e o espetáculo estreou em um ato de desobediência civil. Decisão tomada em mais uma das longas e tensas assembleias da categoria nas madrugadas do Ruth Escobar, uma delas presidida por Procópio Ferreira já com 70 anos. Cacilda Becker sinalizou que teatro não se dobraria à arbitrariedade.: "O espetáculo vai começar", disse. Ruth Escobar que abrira as portas para as reuniões tornou-se mais visada ainda.

A Feira Paulista agrupava as pessoas e ficou na memória como um protesto vigoroso assim como duas encenações semelhantes: O show Opinião (1964) com textos de Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, direção de Augusto Boal, e que revelou Maria Bethânia (substituindo Nara Leão) ao lado de Zé Keti e João do Vale, e Liberdade, Liberdade (1965), de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, também diretor, com Paulo Autran.

O Palco do Mundo. Enquanto se batia pela cena livre, Ruth Escobar ampliou a animação cultural ao chamar o diretor argentino Victor Garcia para a montagem de Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal (1968) que arrastou uma multidão de espectadores, sobretudo os jovens. Em seguida, o extraordinário Victor fez O Balcão, de Jean Genet, trabalho de repercussão internacional e em cartaz de 1969 a 1971. Ruth atuou com brilho em um elenco primoroso (voltaria mais tarde a impressionar bem em Torre de Babel, novamente de Arrabal). Em 1974, ela lançou o I Festival Internacional de Teatro de São Paulo que além do mérito artístico era um fato político. Os espetáculos estrangeiros rompiam o isolamento cultural brasileiro. O crítico Sábato Magaldi, então Secretário da Cultura do município, sofreu pressão do Serviço Nacional de Informações (SNI) para não apoiar o evento. Sábato resistiu e o festival foi um sucesso. Viriam outros. 

Fora de cena, Ruth agia para libertar artistas presos, e sempre havia algo grave acontecendo. No dia 5 de maio de 1970 a atriz Nilda Maria não apareceu para seu papel em O Balcão. Fora detida por razões políticas e passaria meses na prisão. Simultaneamente, o teatro acolhia as primeiras discussões sobre a crise da democracia no país. Em setembro de 1976, chegou-se ao 1º Ciclo de Debates: Panorama da Cultura Brasileira destinado a testar as proclamadas intenções de abertura do governo do general Ernesto Geisel. A proibição quatro horas antes do inicio e a relação dos signatários do protesto enviado à Presidência revela o consenso pelo retorno à democracia plena. Pela ordem, assinaram o documento Ruth, Ruy Mesquita, Fernando Lemos, Perseu Abramo, Audalio Dantas, Paulo Duarte e Fernando Henrique Cardoso. 

O ciclo foi liberado e durante três meses se ouviu os melhores profissionais nas áreas de Jornalismo, Literatura, Indústria Cultural, Esporte, Consumo e Propaganda, Humor e Quadrinho, Teatro, Política Cultural, Televisão, Cinema e Artes Plásticas. Como sinal de que a liberdade era ainda um caminho difícil, logo a seguir Ruth foi chamada à Policia Federal para esclarecimentos no processo do governo contra o dramaturgo Plínio Marcos, acusado de calúnia aos censores. Por ironia, ou bastante intenção, o ciclo foi encerrado no dia 13 de dezembro, data da promulgação do AI-5, oito anos antes. 

De junho a outubro de 1977, foi a vez do Seminário de Dramaturgia Brasileira para a leitura dramática de textos proibidos. A iniciativa reuniu mais de cinco mil pessoas e foram lidas as peças Mulheres de Atenas, de Augusto Boal; Rasga Coração; de Oduvaldo Vianna Filho; Trivial Simples, de Nelson Xavier, A Passagem da Rainha, de Antonio Bivar; Barrela, de Plínio Marcos; Calabar, o Elogio da Traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra; A Cidade Impossível de Pedro Santana, de Consuelo de Castro; Enquanto se vai morrer, de Renata Pallottini; Basta, de Gianfrancesco Guarnieri; A Heróica Pancada, de Carlos Queiróz Telles; Sinal de Vida, de Lauro Cesar Muniz e Milagre da Cela, de Jorge Andrade. Nos debates, estiveram presentes juristas, políticos, jornalistas, intérpretes e acadêmicos, entre outros, Antonio Candido, Fernando Henrique Cardoso, Iberê Bandeira de Mello, Mino Carta, Almino Afonso, Marilena Chauí, José Álvaro Moisés, Paulo Sérgio Pinheiro. Com a redemocratização os textos foram encenados e se provaram boa dramaturgia. 

A Campanha pela Anistia. O Ruth Escobar tornou-se referência para novas atividades de caráter solidário ou político. Uma delas foi a seção paulista do Comitê Brasileiro pela Anistia. A entidade, instalada na Câmara Municipal, em 12 de maio de 1978, teve reuniões preparatórias no teatro. Ao mesmo tempo, houve ali o Ciclo de Debates Sobre a Conjuntura Política Nacional com a participação de centros acadêmicos, entidades culturais e políticos. 

O instante culminante dessas jornadas deu-se no I Congresso Nacional pela Anistia, de 2 a 5 de novembro de 1978. Os trabalhos desenvolveram-se no Teatro da Universidade Católica (Tuca) e no Instituto Sedes Sapientiae, mas com encerramento no Teatro Ruth Escobar. Nessa noite, a assistência leu em coro o resumo da Carta de Princípios que exigia o fim da repressão, da tortura, liberdade de organização, manifestação ampla, geral e irrestrita. Compareceu ao ato histórico o senador italiano Lélio Basso, presidente do Tribunal Internacional Bertrand Russel de defesa dos direitos humanos. Presente também, como um expoente da inteligência brasileira, o crítico de artes plásticas Mário Pedrosa. O respeitado intelectual e político estava de volta depois de prisões e exílios.

Ruth cederia ainda o teatro para as seguintes manifestações: I Congresso Brasileiro da Mulher Paulista (março de 1979); Debate Sobre a Palestina quando, pela primeira vez, o representante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) pode defender publicamente a sua causa (janeiro de 1980); I Encontro Brasileiro de Homossexuais (abril de 1980); Fórum de Debates Sobre a Mulher (março a novembro de 1980). O mesmo espaço esteve aberto para a Campanha pelas Eleições Diretas. No desdobramento do processo, com a eleição indireta, Ruth promoveu o primeiro encontro do candidato Tancredo Neves com os artistas de São Paulo. Ela mesma foi deputada estadual pelo PMDB em duas legislaturas, a de 1983-1987 e da Constituinte, de 1987- 1991, quando recebeu 61.124 votos. 

Quanto às admirações, polêmicas, e restrições que gerou ela própria tratou delas em Maria Ruth (Editora Guanabara, 222 págs, 1987) memórias de desconcertante sinceridade com prefácio do psicanalista Helio Pellegrino. No relato, dedicado aos cinco filhos, revelou saber muito bem que já tinha sido vista como inconsequente ou portuguesa oportunista etc. Mas lá estavam também a intimidade familiar, sonhos, casamentos e as fragilidades de uma mulher ao lado dos empreendimentos artísticos, prisão, processos e comprovados gestos de coragem. Apesar de algumas discutíveis aproximações políticas, que justificava pela necessidade de verbas para os festivais, esteve ao lado das causas libertarias e do melhor teatro. No sepultamento de Vladimir Herzog, em 1975, a dor e o medo impediam qualquer manifestação; e foi ela quem cortou o silencio com uma pergunta: "Até quando enterraremos nossos mortos em silêncio?" 

Os que puderam conhecê-la de perto descobriram a mulher calorosa de riso largo e senso de humor. A Pessoa além da Persona. Esses fatos das artes, da política, do cotidiano e da História garantem à Ruth Escobar um lugar na memória cultural e cívica do Brasil e na estima dos seus muitos amigos. 

 

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