Victtor Hugo Ceccato
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Crítica: Rodrigo Portella dirige ótimo trio de atores em sóbria encenação

Drama da britânica Lucy Kirkwood, 'As Crianças' observa dilemas da maturidade

Maria Eugênia de Menezes, Especial para 'O Estado'

08 de novembro de 2019 | 17h52

Gradativamente, São Paulo começa a conhecer os trabalhos que fizeram a fama do diretor Rodrigo Portella. No Rio de Janeiro, ele esteve indicado a todos os mais importantes prêmios nos últimos anos - a ponto de se tornar uma espécie de grife de sucesso, procurado por atores e companhias experientes. Em As Crianças, drama em temporada no Sesc 24 de maio, Portella deixa entrever qualidades que justificam a fama recente ao entregar uma encenação limpa e segura. De uma sobriedade que contrasta com sua trajetória heterodoxa. 

Depois de se formar em direção teatral no Rio, Rodrigo Portella tomou uma decisão que certamente contrariava o senso comum: decidiu trocar a capital fluminense por uma cidadezinha no interior do Estado, Três Rios. Paradoxalmente, foi lá, sem a estrutura de editais ou patrocínios, que ele conseguiu se estabelecer profissionalmente: formou uma companhia e criou um espetáculo, Antes da Chuva, com o qual chamaria a atenção da crítica especializada e teria a chance de percorrer todo o País. 



Com As Crianças, Portella consegue interpretações muito menos físicas e mais sutis do que em suas obras anteriores. Na recente Tom na Fazenda, trazia os atores em vigoroso embate psicológico e corporal, com movimentos que evocavam uma coreografia primitiva e animalesca. O que soa menos visceral aqui, porém, não é menos interessante e parece bastante adequado ao tom proposto pela dramaturga britânica Lucy Kirkwood. 

O contexto é aparentemente ameno: um reencontro entre amigos que não se viam há 38 anos. Ao redor de uma grande mesa, a dona da casa Dayse (Analu Prestes) e a visitante Rose (Andrea Dantas) falam da velhice, de seus novos hábitos de saúde, de filhos e netos. Mas, conforme avança a trama, algo parece fora de lugar - a energia elétrica não funciona, o café é feito com a água morna de uma garrafa térmica, a antiga casa em que a anfitriã morava precisou ser abandonada. 

De repente, compreendemos melhor o quadro que se desenha: um casal de físicos aposentados recebe uma antiga colega de trabalho após um acidente nuclear. Juntos, eles trabalharam em uma usina. Um terremoto provocou um tsunami, a água entrou dentro do reator e, desde então, todo o entorno foi tomado por radiação. 

Estranhamente, a revelação não surge cercada por gravidade ou por uma mudança no ritmo da peça. Mantém-se certo clima de amenidade, aquela falta de assunto típica entre pessoas que um dia foram íntimas, mas já não se conhecem mais. Conserva-se também uma atmosfera de suspense, como se as revelações - e as responsabilidades que envolvem o acidente nuclear em questão -, ainda não tivessem vindo todas à tona. 

Por que Rose voltou à pequena cidade depois de tantos anos distante? A dramaturgia de Lucy Kirkwood brinca com as razões desse retorno. Quando o marido de Dayse, Robin (Mario Borges), chega em casa no fim do dia, a dinâmica do que já fora um triângulo amoroso se restabelece. Há histórias do passado que não foram contadas, há mágoas de todas as partes. Eles trocam farpas, escondem-se por trás de certa ironia para disfarçar um incômodo crescente. Mas a peça não trata de imbróglios amorosos - assim como não tematiza especialmente desastres ambientais. 

A cenografia de Julia Deccache e Rodrigo Portella investe em poucos elementos, todos bastante significativos. Além da mesa e de algumas cadeiras, estão dispostos no palco um cavalinho de madeira (aparentemente contaminado pela radiação), uma garrafa de vinho, uma planta. São pistas breves para o questionamento ético e existencial que ganha forma ao longo do espetáculo. 

O universo infantil, evocado pelo título As Crianças, diz respeito tanto às novas gerações quanto a um traço de imaturidade que perdura nesses velhos companheiros. É uma espécie de acerto de contas entre gerações. Mas sem que a autora - que tem pouco mais de 35 anos - aponte o dedo para esses personagens que teriam idade para serem seus pais. Quando olhamos para os dilemas desse trio de amigos, não parece existir resposta simples. Eles chegaram à velhice com um mundo em destroços e precisam aprender a continuar a viver. As interpretações alcançadas por Analu Prestes, Mario Borges e Andrea Dantas - todas de ímpar delicadeza - só reforçam esse olhar amorosamente ambíguo. 

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