Jose Luiz Pederneiras
Jose Luiz Pederneiras

Crítica: Grupo Corpo completa a sua travessia em diálogo com o tempo

Em ‘21’ e ‘Gira’, Heranças Históricas São Reverenciadas Sem Estereótipos

Fernanda Perniciotti, Especial para O Estadao

11 Agosto 2018 | 16h23

As duas obras que formam o programa de 2018 do Grupo Corpo, 21 e Gira, são um convite à travessia. Daquela mesma que dizia o conterrâneo do Grupo, Guimarães Rosa, sobre certo sertão mineiro e seus vazios, em que a personagem Riobaldo, um ex-jagunço, podia amar Diadorim, uma figura dúbia, que, sem poder ser homem ou mulher, salvação ou danação, deixava de ser gente para ser neblina. 

E é de neblina mesmo que se trata essa travessia com o Grupo Corpo, uma névoa baixa, com ausência de luz, que dificulta os contornos precisos. No programa que reúne as duas obras, parece, o que importa é aquilo que acontece entre 21 e Gira, que não estanca, mas se mantém, como o Grande Sertão: Veredas, livro que também não se divide em capítulos. E esse acontecer que reúne os dois trabalhos tem o peso de 25 anos, entre 1992, com a criação de 21, e 2017, quando Gira estreou. Tempos históricos que, sabemos, dividem dois Brasis muito diferentes e nem tão diferentes assim, pois banhados na mesma névoa baixa. 

Em 21, a repetição, que está na luz, nos bailarinos, nas sonoridades, explicita tudo o que já foi e não pode mais ser, mas está para ser contemplado e visto, misturando, em uma visão turva, um tempo estendido que dura em cada coisa que precisa acontecer. As cores vivas dos figurinos, as escalas da trilha e dos movimentos, o número 21 que se materializa em ciclo, as referências populares, tudo ali está acontecendo, simultaneamente, e parece criar um ambiente de devaneio. 

Sincrética que é, Gira se manifesta como uma mistura de tradições capaz de deslocar os sentidos. A música que interrompe os seus próprios fluxos, com a voz da mulher do fim do mundo, Elza Soares, que repete a tríade: chão, céu, caos. Ainda, a prontidão dos corpos que nunca saem de cena, mas, em um estado de erupção, penetram o centro do palco com movimento. Os figurinos que não diferenciam homens e mulheres. Os duos que são costurados em um misto de acolhimento e repulsa entre os corpos. 

Em ambas as obras, é possível enxergar um trabalho com heranças históricas do Brasil, como as festas populares e a umbanda, sem achatar nos estereótipos, nas imagens sacralizadas, em uma escolha deliberada de torná-las vivas no diálogo com a perspectiva coreográfica de Rodrigo Pederneiras, desfazendo a clássica discussão “popular x erudito”. A escolha artística de Paulo Pederneiras em colocar uma ao lado da outra impressiona, porque demonstra não só a capacidade de olhar para a história do Grupo, mas uma outra, ainda mais rara, que é a de observar o entorno e costurar contextos. 

Em cena, na neblina que tece esses 25 anos, tem festa, mas não tem comemoração; tem religião, mas não tem fé; tem ritual sem transcendência. Por isso, tudo se mantém em um fluxo sem progresso, o que se conserva também se degrada. E nessa travessia, é com 21 que se lê Gira e é com Gira que se lê 21. E com as duas lê-se muito mais, nesses tempos que se confundem em um presente projetado, em um futuro ultrapassado, em um passado tão atual. E, sem desfechos ou conclusões, sobra mesmo o caminho, como já diria Guimarães: “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. 

 

Mais conteúdo sobre:
Rodrigo Pederneiras Grupo Corpo dança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.