ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Crítica: Elenco de 'Sunset Boulevard' tem atores excepcionais

Direção traz a agilidade do clássico do cinema para a linguagem do palco

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 03h00

Artes que caminham juntas, cinema e teatro se autoalimentam. Nem sempre com acertos, mas, quando acontece, um tema é visto por múltiplas visões. É o caso de dois musicais nacionais em cartaz em São Paulo, Sunset Boulevard e Billy Elliot, ambos nascidos de filmes. E, se Billy busca atualizar um tema (leia abaixo), a versão de Sunset se inspira na agilidade da linguagem cinematográfica para oferecer como trunfo.

Baseado no filme Crepúsculo dos Deuses, dirigido em 1950 por Billy Wilder, o musical mantém o clima da época, seja nos figurinos e cenário, seja na melodia composta por Andrew Lloyd Webber. A trama acompanha o trágico envolvimento do jovem roteirista Joe Gillis com uma esquecida estrela do cinema mudo, Norma Desmond. Disposta a retornar ao trabalho, ela acredita ainda ser venerada por fãs, mas, de fato, conta apenas com a dedicação de seu mordomo, Max von Mayerling.

Crítica ao cinismo do sistema hollywodiano, Sunset Boulevard preserva pontos importantes do roteiro do longa. Também a lúgubre mansão de Norma é retrato da decadência de um momento do cinema, o dos filmes mudos. Para evitar a constante troca de cenários, o que prejudicaria o ritmo da peça, o diretor Fred Hanson conseguiu, com a ajuda do cenógrafo Matt Kinley, uma solução de mestre ao dividir o palco em dois níveis.

Isso destaca o belo trabalho da direção musical de Carlos Bauzys e a coreografia de Katia Barros, que mantém o elenco em sincronia com os saltos da história. Mas, para que tudo funcione, a interpretação é fundamental. Lia Canineu constrói o papel de Betty Schaefer, jovem roteirista que se apaixona por Joe, com rara delicadeza e uma voz hipnotizante. Como Joe, que o obriga a quase não sair do palco e a mostrar seu talento vocal, Julio Assad firma-se, uma vez mais, como grande ator.

Um dos grandes intérpretes do musical brasileiro, Daniel Boaventura transforma um papel tido como pequeno, o de Max, em atuação marcante. Já Norma é vivida de duas formas. Marisa Orth reforça seu lado dramático ao mostrar as fragilidades de uma estrela. Sua alternante, Andrezza Massei, participa apenas de uma sessão por semana, mas honra a titular com uma presença poderosa, marcada por gestos que revelam a triste loucura de Norma.

SUNSET BOULEVARD. Teatro Santander. Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041, tel. 4810-6868. 5.ª/6.ª, 21h; sáb., 17h/21h; dom., 15h/19h. Preços: R$ 75 a R$ 290.

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