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Crítica: Cacá Carvalho fala de amor e política em nova peça

‘A Próxima Estação’ traz ator tentando esquecer de si mesmo em cena, abandonando a teatralidade e resistindo à tentação de representar os dois personagens da trama: Violeta e Massimo

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO 

28 de novembro de 2016 | 06h00

Uma peça sem teatro, um ator que não interpreta. Em A Próxima Estação – um Espetáculo para Ler, Cacá Carvalho dá a impressão de deixar de lado tudo aquilo que sabe fazer. Intérprete de muitos e reconhecidos talentos, tenta esquecer de si mesmo em cena, abandona a teatralidade e se coloca simplesmente a ler, resistindo à tentação de representar os dois personagens dessa trama: Violeta e Massimo. O público percorre a história desse casal durante 50 anos – presencia seus desencantos e momentos máximos de afeição.

Mas não lhe é dada a chance de conhecer, em nenhum momento, a emulação de um gesto ou de uma entonação de suas vozes. 

A escolha destoa do percurso do ator. Revelado por Antunes Filho, em Macunaíma, Cacá mergulhou, nos últimos anos, na obra de Pirandello, sempre guiado pelo italiano Roberto Bacci. Mais recentemente, deparou-se com a escuridão de Dostoievski em 2x2 = 5 Memórias do Subsolo. Visto nesse panorama, o aspecto formal de Próxima Estação é distinto. Mas o assunto, escondido sob outro invólucro, não varia tanto. Mais uma vez, lá está o homem – em sua imensa e incontornável fragilidade – a debater-se com seu destino terrível: o de ser livre e viver. É, invariavelmente, em torno disso que o trabalho desse artista se organiza. 

No texto de Michele Santeramo, que Cacá conheceu durante uma das suas frequentes viagens de trabalho à Itália, está uma história de amor. Capaz de comover e envolver a plateia. Ainda que trate da trajetória ordinária de duas pessoas comuns. Elas não fizeram, afinal, nada de excepcional. Não construíram algo que tenha feito diferença no mundo, não tiveram filhos, viveram uma relação possível, com os empecilhos de toda vida a dois e sem os rasgos de heroísmo que tornam os romances memoráveis. Poderiam ser quaisquer outras pessoas.

Talvez, a banalidade aparente dos episódios envolvendo Massimo e Violeta seja seu maior encanto. Porque há algo de delicado e genuíno nesse vínculo que atravessa as décadas. Uma resistência ao esmorecimento – ainda que o cansaço seja visível. Um olhar para o que une dois seres em um contexto no qual é preciso pensar primeiro em si.

A obra de Santeramo contempla as individualidades desses dois personagens, mas não ignora as implicações do tempo em que vivem. 

Ao se deter apenas sobre as microdinâmicas de um casal, a obra se mostra, sobretudo, política. Convida a olhar para nossa época, revisar nossas escolhas como cidadãos e, especialmente, sobre o peso das decisões que resolvemos não tomar. O mérito está na maneira habilidosa como está feita essa urdidura: um entrecho que confunde a intimidade e o social, o indivíduo e o estar no mundo. 

Muitos dos princípios do teatro contemporâneo poderiam ser evocados em uma análise dos procedimentos utilizados por Cacá Carvalho nesse seu “experimento cênico”. Não estamos a lidar com uma história linear, que siga os princípios do drama convencional. Há um ator que lê alguns diálogos, enquanto reparte a tarefa com o público: também levado a ler (em silêncio), rubricas que vão sendo projetadas. Os personagens Massimo e Violeta são representados por inclassificáveis criaturas. Nos desenhos da artista plástica Cristina Gardumi, projetados em um telão, o casal surge em figuras de animais humanizados – ou humanos animalizados.

A trama começa em 2015 e avança cinco décadas no futuro. Constantemente, camadas vão sendo adicionadas com o intuito de alertar o espectador para o caráter anti-espetacular daquilo que presencia. Mas não é de assepsia que se trata. Nem de distanciamento. Nessa montagem brasileira, a coordenação artística de Márcio Medina faz um voto pela brandura e pelas minúcias. É nos detalhes que o engenho se dá.

Fala-se de uma época em que um aplicativo recupera todas as memórias perdidas, em que não existe mais comida e a moeda foi substituída por sangue. Existe esse travo de distopia futurista, o lado escuro das novas tecnologias e seus mecanismos de controle.

Mas a peça consegue provocar outras reações. Uma fé revolucionária em pequenos gestos. Uma esperança renovada no mais simples. Uma espécie de manifesto pela coragem: de negar o que nos violenta – mesmo no mínimo; de celebrar os laços que nos unem – apesar de tudo. 

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