PAULO BRAZYL
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Cracolândia inspira nova peça do Pessoal do Faroeste

Ficção científica une o conto ‘O Alienista’, de Machado de Assis, ao empoderamento das mulheres no ano de 2084

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2017 | 04h00

A fumaça das bombas que penetrava pelas portas e janelas do teatro interrompeu, mais uma vez, os ensaios da nova peça do Pessoal do Faroeste, na Luz. Desde o domingo da Virada Cultural, a região da Cracolândia tem sido palco da intervenção policial e da gestão que afirmava que iria acabar com a venda e o tráfico de drogas na região.

O gás lacrimogêneo que incomodava quem estava nas ruas não foi a única coisa que atingiu o elenco de Curare, espetáculo em cartaz na sede da companhia que completa 19 anos. Inspirado no conto de O Alienista, de Machado de Assis, o diretor Paulo Faria criou uma ficção científica cuja figura do médico Simão Bacamarte ganha versão feminina e negra, a dra. Joana. “A peça acontece no ano de 2084, momento em que o Brasil é o maior exportador de canabis e petróleo e lidera o ramo de medicina fitoterápica”, explica Faria.

Entre os estudos com plantas medicinais, a médica é acompanhada por quatro cavaleiras do Apocalipse – Fome, Peste, Guerra e Morte – que vêm anunciar o fim da dor para mulheres vítimas do machismo. 

A despeito da narrativa fantástica, o diretor afirma que existem coisas bem reais como a atuação da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, entidade que questiona a política de internação compulsória para viciados em crack na região da Cracolândia. Na noite em que foi entrevistado, Faria participava de uma mesa de debates no Largo General Osório, centro da cidade, sobre o tema. “A peça foi construída nessa vivência na qual a polícia jogava bombas e prendia pessoas, enquanto tentávamos pensar em outras soluções para nós e para eles.”

Quem vai assistir à peça precisa, antes, se dirigir ao Largo General Osório, onde um grupo de atores faz um prólogo inspirado em Romeu e Julieta. “Sempre fiquei me perguntando a razão de tanto ódio entre as duas famílias”, diz Faria. “A explicação não importa para a história, só que se trata de um ódio histórico, que atravessa o tempo. Queremos alcançar essas origens aqui e entender os desdobramentos na sociedade.”

Em seguida, o público escolhe uma das quatro cavaleiras para acompanhar pelo teatro e pelo Amarelinho, prédio mantido pela companhia que serve de ocupação cultural para artistas. “É uma forma de denunciar que essa violência não é solução para as pessoas que estão na Cracolândia”, acrescenta.

CURARE. Pessoal do Faroeste. Rua do Triunfo, 301. Tel.: 3362-8883. Sáb., 20h, 22h30, dom., 19h. Pague quanto puder. Até 8/10.

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