DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

'Corpos Opacos' investiga poesia na vida escondida de monjas colombianas

Carolina Virgüez e Sara Antunes narram a vida de freiras que se ansiavam pelo êxtase da morte

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2019 | 03h00

A clausura voluntária de mulheres em igrejas católicas pode refletir uma decisão sombria e cruel, mas no século 17 esta decisão poderia ser considerada um ato corajoso pela liberdade. “Qual era a alternativa para elas? Casar e ter filhos?”, questiona a diretora Yara de Novaes.

Nesta sexta, 31, ela estreia Corpos Opacos no Sesc Belenzinho, espetáculo inspirado na história de freiras colombianas conhecidas como las monjas coronadas. Quem pescou essa história e acreditou em sua relevância cênica foi a atriz Carolina Virguëz, nascida na Colômbia. Em 2016, ela brilhou em Caranguejo Overdrive e levou o Prêmio Shell de melhor atriz. “Fui visitar minha família e descobri que havia uma exposição nessa igreja.” Localizada em Bogotá e tão importante e central como a Igreja da Sé em São Paulo, o mausoléu serve de arquivo raro para peças e documentos sobre uma tradição que se estende pelo México e Espanha. 

No palco, retratos de quatro mulheres deitadas e de olhos fechadas dão a pista do título de monjas coronadas. “Elas estão mortas nas pinturas”, afirma Carolina. “Durante toda a vida, as freiras se preparavam para o encontro com o verdadeiro noivo, que é Cristo”, conta Carolina. “Até o último dia de vida, bordavam um manto e uma coroa de flores. Esse era o maior êxtase que poderiam ter, mas não em vida.” Carolina ressalta que a estética das monjas fez diversos pontos de contato com a cultura latina. “Frida Khalo se inspirou nelas ao usar a coroa de flores.”

Na encenação de Yara, essas imagens servem de pontapé para a poesia que virá a seguir, no amplo espaço cênico do Sesc Belenzinho. “No início achávamos que elas viveram uma história de dor e opressão, mas aos poucos descobrimos que as monjas também buscavam libertação da sociedade patriarcal da época, e a clausura se mostrou como opção possíveis.”

Sara Antunes divide o palco com Carolina. Filha de padre e freira, a atriz conta que já intuía um movimento de autonomia entre mulheres que se tornavam freiras. “Na igreja, elas podiam pintar, bordar, cantar. Não havia o compromisso diário de uma mulher casada, nem o cuidado com os filhos. As primeiras feministas da América Latina eram freiras”, afirma. As duas atrizes já contracenaram em Guerrilheiras (2016) sobre a tropa feminina que lutou no conflito ao longo do Rio Araguaia. 

Durante o ensaio visto pela reportagem, a direção musical de Natalia Mallo sugere uma viagem exuberante pela música latina e também pelo silêncio sagrado das preces. Já o cenário de Marcio Medina verticaliza o olhar com uma lona estendida, criando uma redoma, interrompida por um círculo, por onde a luz de Wagner Antonio atravessa. “O buraco sempre esteve associado ao feminino”, afirma Yara. “E não deixa de criar a relação com uma catedral, quem sabe o Panteão.”

CORPOS OPACOS. Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000. 2076-9700. 6ª, sáb., 21h30, dom., 18h30. R$ 30 / R$ 15. Estreia hoje, 31. Até 30/6. 

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