Pablo Bernardo
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Corpos marginalizados ganham visibilidade na dança

Bienal Sesc de Dança chega à 11ª. edição, com proposta curatorial voltada à pluralidade de corpos

Fernanda Perniciotti, Especial para 'O Estado'

12 de setembro de 2019 | 14h09

Corpos velhos, corpos gordos, corpos negros, corpos deficientes, corpos insanos, corpos trans, corpos não-binários. Nesses tempos em que a pauta conservadora toma lugar nos noticiários, a pluralidade de corpos, as invisibilidades e as violências urbanas são as grandes temáticas da 11ª. Bienal Sesc de Dança 2019, que vai de 12 a 22 de setembro, em Campinas.

A programação, formada por 50 ações cênicas, com trabalhos de 12 países, das Américas, Europa e Ásia, e oito estados brasileiros, vem com a proposta de trazer à cena a aposta na diversidade. Entre as mais de mil inscrições na convocatória, segundo a equipe curatorial, formada pelos programadores do Sesc-SP, Silvana Santos e Fabrício Fioro, e pelos artistas convidados, Cristian Duarte, Luciane Santos e Rita Aquino, a busca foi por selecionar projetos que, de algum modo, lidassem com sujeitos à margem da sociedade. Corpos que não são identificados com o lugar da dança, visto pelo senso comum a partir do desempenho e associado a um determinado biotipo: juventude, magreza e branquitude.

A abertura, por exemplo, contará com a presença das vovós coreanas, com o espetáculo Dancing Grandmothers, da coreógrafa sul-coreana, Eun-Me-Ahn. A proposta do trabalho é que um grupo de senhoras dance suas histórias, ao lado dos jovens bailarinos que compõem o elenco da companhia. Além da condição do idoso, cada vez mais indesejado em uma sociedade que busca a juventude eterna, a proposta é discutir o lugar social dessas mulheres. Afinal, elas deveriam cuidar da casa e dos filhos, mas, ao mesmo tempo, vivenciaram a guerra da Coreia, passaram por uma ditadura e, agora, vivem em uma democracia.

Corpos “diferentes” estão também em Cantos dos Malditos, de Marcos Abranches, um artista portador de coreoatetose (deficiência física gerada por uma lesão cerebral); na parceria da coreógrafa espanhola La Ribot com a Cia Dançando com a Diferença, que se autodenomina inclusiva e é dirigida pelo português Henrique Amoedo; e também no Giradança, grupo sediado em Natal e dirigido por Alexandre Américo, com um elenco composto por bailarinos com nanismo, que usam cadeira de rodas, entre outras deficiências. Em comum, esses trabalhos não oferecem aquela narrativa que se tornou hegemônica, centrada no estímulo da superação individual, mas, sim, um outro modo de olhar para as diferenças, para que não sejam vinculadas com o horror social com o qual, geralmente, são associadas.

O racismo estrutural e as violências sobre os corpos negros, que representam 75% das vítimas de homicídio no Brasil, também são foco da programação, como o trabalho dirigido por Alexandre da Sena, Violento, que se propõe olhar para a masculinidade negra, tão socialmente criminalizada.

A tentativa da curadoria é de compor um pensamento para as questões do presente: “A gente está falando de dança contemporânea, a gente está falando de 2019, está falando dessas agonias que atravessam todos os corpos. Os espetáculos, as rodas, as ações passam por essas fricções com o nosso tempo. Fricções que são também diálogos, e não só resistências. Buscar possibilidade de enxergar adiante; afinal, como dançaremos aqui agora?”, disse Luciane Santos, no Sesc Campinas, em entrevista exclusiva da equipe de curadores para o Estado.

Outro traço curatorial foi a escolha de trabalhos não inéditos, como O Banho, de Marta Soares, o Eu sou uma fruta gogoia, de Thelma Bonavita, ou Procedimento 2 para Lugar Nenhum, de Vera Sala: “Não dá para deixar de perceber o momento em que esses trabalhos aconteceram e o quanto eles têm potência ainda hoje, como provocam uma discussão, um outro tempo de trabalho. A ideia é pensar em trabalhos que têm um tempo que é diferente desse da correria do dia a dia, que a gente não para, não respira”, complementou Silvana Santos.

Em entrevista ao Estado, Danilo Miranda, diretor do Sesc São Paulo, enfatiza que, para ele, a função da Instituição é olhar para os corpos socialmente invisíveis: “A nossa perspectiva é a da liberdade de todos os corpos, principalmente os corpos marginalizados, que é o que caracteriza um pouco a nossa linha curatorial nessa Bienal, em particular. Os chamados corpos marginalizados, que não são reconhecíveis como apresentáveis na dança, ou na vida em geral”.

Quando questionado sobre a importância da proposta deste ano em relação às tendências conservadoras crescentes, que se expandem Brasil afora, Danilo Miranda acredita que essa onda: “é um grito desesperado, sem perspectiva, dos reacionários. Isso não tem a menor chance de prosperar. A civilização, o desenvolvimento da humanidade, vai passar por cima disso, porque não tem como voltar atrás. Isso não existe”, mas reconhece que o ambiente é tensionado: “a ação cultural conta com os questionamentos, as dificuldades, as afirmações necessárias de uma postura ética frente às relações humanas, às questões sociais; e isso gera fricção e embate, porque são posições fortes e variadas na sociedade em relação a isso”.

Liberdade e memória são duas palavras caras aos curadores desta Bienal. No entanto, é preciso muita atenção para identificar se a sobreposição dessas visibilidades, ao invés de construir um olhar que identifique as especificidades de cada tipo de marginalidade, termine estimulando, na direção oposta, certa padronização das distintas invisibilidades, produzindo apagamentos. Acompanhar a intensa programação talvez seja a oportunidade de refletir sobre isso.

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