Companhia mexicana cria cenário antropofágico

Em ‘Psico/Embutidos’, estrutura com 8 metros de altura simula o sistema digestivo cujo alimento é o espectado

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2016 | 04h01

A relação dos mexicanos com a comida parece acessar um espaço da memória coletiva que tem sido usada de maneira bastante potente no palco. Dois exemplos passaram pelo Festival de Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, o Mirada. Um deles, o espetáculo Cuando Todos Pensabam que Habíamos Desaparecido – Gastronomiaescénica , do grupo Vaca 35, evocava a relação com parentes e familiares a partir de refeições que despertassem a memória dos atores. O público não só compartilhava das lembranças, mas ao final, podia experimentar os pratos preparados. O segundo, Psico/Embutidos – Carniceria Escénica, também se apresentou no festival e agora curta temporada no Sesc Consolação.

A montagem da Cia. Titular de Teatro de la Univesidad Veracruzana traz uma instalação cênica, com oito metros de altura, que replica o aparelho digestivo. Composto de várias divisões, o espaço oferece uma travessia na qual o espectador é o “alimento” desse sistema.

O diretor Richard Viqueira explica que a plateia é conduzida para dentro da parafernalha estomacal e acompanha a história de uma família. “Existem diferentes níveis, entre escadas e plataformas que recordam cada parte do corpo humano responsável pela digestão.”

A família cuja história é narrada ganha nomes singulares. O apreço dos mexicanos por alimentos embutidos como chorizo é o que batiza alguns de seus integrantes. “Suas funções e características também são importantes, seja o pai ou a mãe, assim como os filhos e parentes. Todos eles têm nomes inspirados nesses alimentos”, explica o diretor.

Durante a trajetória, o público vai conhecer figuras como a Salsicha, que pretende enterrar sua mãe Linguiça. O universo fantástico criado ainda integra salsichas pornográficas, salsichas nazistas, carnes kosher confinadas em campos de concentração, um mortadela que viaja no tempo, carnes pedófilos que apreciam “salsichinhas” e almôndegas gurus tibetanas.

A escolha por representar uma família associando seus membros a esse tipo de comida, surgiu da ideia de própria relação dos patriarcas e seu legado. Para Viqueira, a violência com a qual os embutidos são produzidos encontra identificação na cultura mexicana e no próprio funcionamento da sociedade. “São comidas feitas com parte descartadas de outros comidas. Em geral, o que é descartado e ainda serve para comer pode ser comprimido, o que resulta nos chorizos, por exemplo. Há uma certa tradição na fabricação de embutidos e isso é passado de pai para filho.”

Já a escolha do elenco foi no caminho contrário dessa cultura embutida. Ao todo, 19 atores cujas idades variam com idades que vão de 20 a 30 anos. O diretor ressalta que o objetivo era examinar o tema a partir do ponto de vista dos jovens, com relatos trazidos da convivência. Além disso, havia o interesse de que os atores se aprofundassem em um determinado eixo de interpretação. “A história narrada traz todos os integrantes da família interpretados por esses jovens. Quem interpreta uma criança, em seguida poderá viver o pai, ou mesmo a mãe. A passagem do tempo também é primordial, pois a plateia vai acompanhar o envelhecimento das personagens e o desenvolvimento da trama.”

O Brasil é o primeiro país que recebe uma temporada internacional do espetáculo. Viqueira ressalta que a curiosidade e simpatia do público brasileiro foi primordial na encenação. “Os mexicanos sempre foram mais tímidos e resistentes ao passear pela instalação e ouvir as histórias. Essa peça foi feita para funcionar com um público realmente ativo em sua relação com os atores. Os brasileiros demonstram muita disposição para mergulhar na obra.”

PSICO/EMBUTIDOS. Sesc Consolação. R. Dr. Vila Nova, 245; 3234-3000. sáb., dom., 17h, 17h30, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, 20h, 20h30. R$ 20 / R$ 40. Até 1º/10.

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