Andrea Zani
Andrea Zani

Companhia italiana traz a São Paulo espetáculo que une dança, teatro e tecnologia

Em ‘Firefly’, a eVolution Dance Theater brinca com a ilusão criada pela iluminação e faz bailarinos dançarem nas sombras

Juliana Ravelli, O Estado de S. Paulo

21 Julho 2015 | 05h00

É uma tradição antiga, que começou com ilusionistas e passou por visionários como o cineasta francês Georges Méliès (1861-1938): encantar com a ciência e tecnologia e comover com a arte. Ao unir suas paixões, o coreógrafo americano Anthony Heinl faz o mesmo com a eVolution Dance Theater. Nesta terça, 21, a companhia estabelecida na Itália se apresenta no Teatro Alfa, em São Paulo. A turnê passará ainda pelo Rio, Paulínia, Porto Alegre, Joinville, Recife, Petrópolis e Nova Friburgo. 

Criado em 2008, o grupo apresenta no Brasil o espetáculo Firefly, que une dança, teatro, acrobacias, ilusionismo e efeitos especiais. “Sempre gostei muito de ciência e tecnologia, mas também cresci fazendo teatro. Então, tive de escolher. Comecei a estudar Química e Física na universidade, mas decidi que queria tentar fazer teatro”, disse ao Estado, por telefone. 

O encantamento que ele busca causar com o trabalho teve inspiração na infância, quando observava vaga-lumes (fireflies, em inglês) no quintal de casa, no verão. “Havia aquele dia em que você estaria olhando para o jardim e de repente tudo seria iluminado por esses pequenos bichos. Era fascinante, mágico. Uma coisa simples, mas que sempre amei ver.”

Heinl deseja que o público tenha a mesma experiência singular ao assistir ao espetáculo. No entanto, prefere não oferecer muitas explicações sobre o que surge no palco. Quer que cada um se encarregue de dar significados para aquilo que vê.

Luz negra. Em Firefly, figuras misteriosas aparecem sob a luz negra. Nunca se sabe de onde surgem e para onde vão. Elas interagem com objetos que, como os bailarinos, ganham vida por meio das cores, iluminação e dos movimentos. “É difícil fazer tudo no escuro. Temos milhares de objetos e precisamos colocar tudo no lugar certo.”

Para se habituar às dificuldades e explorar novas técnicas, o elenco ensaia oito horas todos os dias. Segundo o coreógrafo, no estúdio, uma ideia se transforma em “um milhão de possibilidades” que são testadas até que seja encontrada a alternativa ideal. Depois, vem a repetição exaustiva, para chegar à execução natural e sem falhas.

Momix. Essa é a quarta vez que Heinl visita o Brasil. Nas três anteriores, veio como integrante da consagrada companhia americana Momix, na qual dançou por cinco anos. “Voltar com a minha própria companhia é um sonho. Você nunca imagina, quando é performer, que dez ou 15 anos depois vai estar lá com seu grupo. É inacreditável.”

Foi o trabalho no Momix que o motivou a criar a eVolution. Após percorrer o mundo e participar do desenvolvimento de espetáculos, decidiu que já era hora de ser responsável por todo o processo. “Eu criava as tecnologias e ideias e alguém terminava a obra. Queria ser responsável por concluir, também.”

Segundo Heinl, a semente para o estilo adotado pela eVolution – que também inspirou o Momix – vem do coreógrafo americano Alwin Nikolais (1910-1993), outro visionário. A partir dos anos 1950, ele criou trabalhos de vanguarda, para os quais elaborava músicas, cenários, figurinos, iluminação e coreografia. A união de tudo tornava o palco um ambiente onírico. 

“Alwin Nikolais foi quem começou esse gênero. Um dos meus professores na universidade era bailarino dele. Comecei a ficar interessado em seu trabalho. Achei muito futurista. Acredito que a maior razão pela qual não vemos mais seu trabalho é porque a música era muito experimental. Ele usava o sintetizador Moog e coisas assim dos anos 1960.”

‘Cometi todos os erros possíveis com a minha companhia’

O americano Anthony Heinl faliu três vezes nos sete anos do grupo; agora, diz que tudo está finalmente dando certo

Para fazer o primeiro espetáculo da eVolution Dance Theater, o coreógrafo Anthony Heinl afirma que gastou todo seu dinheiro e vendeu tudo o que tinha. Com o esforço, conseguiu um teatro em Roma por uma semana. A casa lotou e os donos do local decidiram ampliar a apresentação para três semanas.

Apesar do sucesso inicial no palco, os bastidores não davam o mesmo resultado. Heinl admite que não estava preparado para administrar uma empresa. Ao longo de sete anos, o americano faliu três vezes e vendeu carros para manter a companhia funcionando. “Não sabia como fazer publicidade, como pagar os bailarinos legalmente, não sabia que eu precisava de um advogado, como fazer proteção de copyright... Havia um milhão de coisas que eu não tinha ideia. É um processo longo e lento. Fiz todos os erros possíveis com a companhia”, diz, rindo. 

Agora, segundo o coreógrafo, “parece que finalmente está tudo ok”. Heinl conseguiu se estruturar para fazer turnês, como a do Brasil, e fechar parcerias importantes. No ano passado, a eVolution foi convidada pela Disney para criar um show, chamado Magic of Light, para a linha de cruzeiros da empresa. “Foi realmente desafiador. Eles são grandes e têm os próprios padrões. Foi uma boa experiência de aprendizagem.”

A temporada no Brasil também é vista como outra grande oportunidade de crescimento. Além disso, o público no País – que Heinl conhece bem da época em que dançava no Momix – deixa o coreógrafo entusiasmado. “Amo ir ao Brasil, é incrível. A plateia é realmente calorosa. Eles enlouquecem. Vocês têm um grande amor pelas artes e essa energia por aí. A gente vai para alguns países e eles são tão educados que não fazem nenhum barulho durante a apresentação e você se pergunta se está entediante. Eles gostam, mas a gente só fica sabendo depois, no fim. É mais fácil se você está no palco e ouve a reação durante o espetáculo.”

Esforço. Segundo o coreógrafo, a administração empresarial é essencial para dar estrutura a novos desafios artísticos. Ele diz que o momento atual é difícil para quem está na área. Embora haja oportunidades comerciais, ainda não existe muito espaço para companhias pequenas e artistas que atuam de forma independente.

A saída, segundo o americano, é trabalhar sério para fazer o grupo crescer aos poucos, tornando-o cada vez mais firme no cenário da dança. O objetivo final, afirma Heinl, é “chegar a um ponto que não preciso me preocupar tanto com dinheiro”. No caminho, pretende continuar investindo em novas tecnologias, materiais e figurinos. “Tenho muitas ideias maiores que nunca tive orçamento para tentar. Talvez algum dia ter um show grande como o Cirque du Soleil ou algo assim.”

Mas Heinl reconhece que o trabalho duro às vezes é acompanhado por um pouco de sorte. Foi o que aconteceu pouco antes da criação de Firefly, quando o americano foi chamado por uma companhia de balé em Florença, na Itália, que havia perdido seu coreógrafo. “Eles me ligaram para ver se eu podia criar algo rápido. E eu já estava trabalhando em algumas ideias para Firefly. Pude trabalhar intensamente com 25 de seus bailarinos durante dois meses”, conta. “É estranho como um dia você recebe uma ligação e isso muda os próximos nove meses de sua vida. Você nunca sabe, esse ramo é muito maluco.” / J.R.

FIREFLY

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722. Tel.: 5693-4000. Terça, 21, 21h. R$ 50 / R$ 150

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