Cacá Bernardes
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Companhia do Feijão desembarca peça na convulsão dos recentes protestos

Em DaTchau – Rumo à Estação GrandeAvenida, mesmo metrô que une manifestantes pode levá-los para um lugar com menos liberdade

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 05h00

O vidro que estilhaça nos pés de um black block e as panelas batidas por um coro de black-tie em terraços gourmet são parte de uma orquestra que, apesar de não tocar pelos mesmos motivos, traz semelhante indignação em cada nota.

Uma música não tão fácil de compreender, nem para grandes intelectuais, afirma o diretor da Companhia do Feijão, Pedro Pires. Nesta quinta, 6, o grupo estreia DaTchau – Rumo à Estação GrandeAvenida no Sesc Belenzinho e coloca a classe média no asfalto da Avenida Paulista, principal palco de protestos e manifestações. 

Na peça, uma pessoa “dos do meio”, como são definidos pelos narradores “de baixo”, tenta escrever uma história que dê conta dos tempos conturbados em que está vivendo. No meio de um sonho, o escritor se percebe indignado com o estado das coisas e isso o leva para as ruas protestar. “Eles são os que estão mais perdidos, porque os pobres não têm o que perder e os ricos estão cercados de privilégios”, explica o diretor.

O sonho do escritor o transporta para um vagão de metrô em um dia de protesto e com destino à Avenida Paulista. Lá dentro, pessoas de todas as origens estão unidas por uma luta comum, ou não. O espaço apertado do coletivo se torna símbolo das tantas demandas políticas e sociais, que engajam pessoas não só por São Paulo, mas pelo Brasil. O diretor lembra que essas pautas sempre foram variadas, mesmo em 2013, durante as jornadas contra o aumento da passagem. “Hoje os motivos se multiplicaram, uma hora você se indigna com uma coisa e depois com outra, e assim vai. Fica difícil saber o que fazer quando todo dia surge uma campanha nova. Por outro lado, falta espaço para o convívio democrático e respeitoso”, conta.

O espetáculo demonstra que o campo minado das militâncias tem espaço para suas próprias divagações, que na peça estão nas mãos “dos de baixo” – figuras populares do teatro que como personagens épicos conhecem o final da história. Esse conjunto intervém no ritmo da saga e faz observações sobre um núcleo tradicional e familiar de classe média, como um pai que entra em conflito com seu filho, inspirado nos romances de Chico Buarque e no tom narrativo de suas obras. “São figuras que revisitaram o passado pós-redemocratização do Brasil e, apesar de ser um momento feliz, esses narradores não são tão esperançosos.” 

O mesmo vagão que entusiasma pessoas vestidas de verde oliva a lutar pelo Brasil e que são contra “os artistas vagabundos” é o mesmo que se abre para uma nuvem de gás lacrimogêneo. E os “vermelhos autoritários” também não estão longe. “Acredito que a peça queira discutir a ideia de trabalho, que segue em um estado cada vez mais nebuloso, diante da reforma da Previdência, por exemplo”, diz Pires. Ele ressalta que o ponto de vista dos narradores ajuda a criar uma fissura nessa polarização. Quando um deles quer saber onde os outros estavam em 2013, a resposta é: “Vendendo água, cerveja e refrigerante nos protestos. Não sei se as pessoas conseguiram o que queriam, mas eu vendi muito”. 

Com uma pesquisa musical que acompanha a dramaturgia, a companhia dá continuidade ao trabalho que completou 18 anos em 2016, festejado com uma mostra de repertório. As produções são pautadas por mergulhos históricos no Brasil e no mundo em atrito com a construção de uma narrativa cênica, um olhar paralelo aos acontecimentos, tal qual Armadilhas Brasileiras (2013), que revê a crise norte-americana de 1929 dentro de uma peça de teatro cujos atores lutam pelo protagonismo da narrativa, ou a mais recente Manuela (2015), que deu vida à máquina de escrever de Mário de Andrade, atualizando relatos do autor e de sua amizade com o escritor Manuel Bandeira. 

O que prossegue na montagem traz a inspiração musical das canções de Adoniran Barbosa, que levam o famigerado metrô para um lugar não tão distante do passado e que se conecta com o título da peça, DaTchau – Rumo à Estação GrandeAvenida. Dachau foi o primeiro campo regular de trabalhos forçados para prisioneiros políticos do governo alemão, em 1933. Em relatos, primo Levi, um judeu italiano que sobreviveu à perseguição nazista, descreve o local cujas portas traziam os dizeres “o trabalho liberta.” 

Apesar de a peça manter suas vias abertas para o onírico e o real, Pires ressalta que já houve um caminho apontado antes. “Existe um medo de que o ódio que se dissemina se torne instrumento de controle social.”

DATCHAU - RUMO À ESTAÇÃO GRANDEAVENIDA. Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000. Tel: 2076-9700. 5ª, 6ª, sáb., 21h30; dom., 18h30. Até 30/4. R$ 20 / R$ 10. 

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