AMANDA CLEMENTE
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Comédia dramática resgata teoria do 'bolinho assassino' que matou o ativista Harvey Milk

Na peça 'Eu Não Sou Harvey', de Michelle Ferreira, o ator Ed Moraes vai do Crack da Bolsa ao açúcar refinado para também falar do Brasil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 19h00

Ao ensinar aspirantes de dramaturgia, Michelle Ferreira tem um conselho valioso: Se você vai escrever sobre o sol, não deve começar olhando para ele, ou vai ficar cego. A solução oferecida pela dramaturga e diretora é uma atitude menos ostensiva. “Olhe para as sombras que o sol produz, o calor”. 

Apesar de não ter seguido o próprio conselho, desde o início, o espetáculo Eu Não Sou Harvey, que estreia nesta quinta, 13, no Sesc Pinheiros, nasceu para ser uma peça também “que vê o sol a partir de suas sombras.” A montagem inspirada na vida do ativista norte-americano Harvey Milk não segue a linha de um reconstituição dramática. “Uma biografia pede outros elementos no palco, e não queríamos ir nesse caminho”, diz a autora.

Sem desprezar a importância do teatro documental, o solo com Ed Moraes e a Cia dos Inquietos é capaz de renovar, com humor e criatividade, a maneira de se abordar figuras reais no teatro. De certa forma, tudo está lá: a militância do primeiro vereador abertamente gay dos EUA, a saudade de seu grande amor, os relacionamentos turbulentos, e claro, o assassinato que ceifou sua vida em 1978, aos 48 anos, dentro da prefeitura, pelo colega democrata e desafeto, Dan White. 

O que arremata a peça com uma narrativa em espiral é a teoria escandalosa praticada pela defesa que livrou o assassino da condenação pela morte do ativista e do prefeito de São Francisco, George Moscone, ambos mortos no mesmo dia. “O advogado alegou que o acusado consumiu açúcar refinado demais na noite anterior, o que o tornou incapaz de assumir o crime”, conta o ator Ed Moraes. 

A “defesa twinkie”, em referência ao famoso bolinho açucarado da época, transformou-se em mitologia nos EUA. No ensaio acompanhado pelo Estado, a defesa de White guiará a encenação: do Crack da Bolsa em 1929, o açúcar refinado surge como justificativa irônica e patética para narrar a destino do ativista, e também do Brasil. “Buscamos uma comunicação clara no texto, para que o público pudesse conhecer Harvey, e também sugerimos paralelos com o país, como a força na produção da cana-de-açúcar aqui”, diz Moraes.

Na pele de um apresentador carismático, o ator da série Bugados (Gloob) passeia por uma história dramática – para quem já conhece a trajetória de Harvey – e consegue tirar do absurdo bolinho assassino uma chance de reflexão. “No fundo, a Justiça é que está em jogo”, diz o ator. “E o contrário do drama não é a comédia”, lembra Michele. “Mas o trágico.”

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